O Visionário que Previu o Bitcoin: Milton Friedman e o Futuro do Dinheiro Digital
Se você perguntar quem inventou o Bitcoin, a resposta unânime entre aqueles familiarizados com o assunto será Satoshi Nakamoto. E de fato, foi Satoshi Nakamoto quem, em 2008, publicou o artigo detalhado explicando o Bitcoin e seu funcionamento prático.
No entanto, a concepção de uma moeda totalmente digital, gerida pelos próprios usuários e sem uma autoridade central, já era tema de longas discussões entre diversos pensadores.
Um desses grandes nomes, um laureado com o Nobel de Economia, formulou nas décadas seguintes às de 1940-1970 as bases teóricas que serviriam de inspiração para o Bitcoin: Milton Friedman.
Apontado por seus pares como o segundo maior economista do século XX, Friedman descreveu, na década de 1990, como seria o Bitcoin.
A Visão Pioneira de Milton Friedman sobre o Dinheiro Digital
Nos anos 90, a internet comercial começava a se expandir globalmente. Apesar de não ter o alcance que possui hoje, alguns visionários já anteviam o imenso impacto que ela traria.
Enquanto muitas previsões se concentravam em facilidades de comunicação, divulgação de informações e comércio, Friedman foi quem conseguiu prever uma revolução no papel do governo em relação às pessoas e ao próprio dinheiro.
Em 1999, ele afirmou:
“Eu acho que a internet será uma das principais forças na redução do papel do governo. E tem uma coisa que está faltando, mas que em breve será desenvolvida: um dinheiro eletrônico confiável.
Um método pelo qual, na internet, você consegue transferir fundos de A para B sem que A conheça B, ou B conheça A. Uma maneira pela qual eu consigo pagar uma nota de 20 dólares, entregá-la a você, e não há registro de onde ela veio, e você pode conseguir isso sem saber quem eu sou.”
Já naquela época, Milton Friedman estava descrevendo o Bitcoin sendo transacionado de forma privada, rápida e com baixo custo.
Em 1991, antes mesmo do manifesto criptoanarquista que inspirou as primeiras moedas digitais, ele já sonhava com um dinheiro “controlado por computador”.
Menos Governo, Mais Mercado: A Filosofia por Trás da Previsão
Esse desejo de Friedman está totalmente alinhado à sua formação como economista liberal. Para ele, quanto menor a intervenção do governo, mais eficiente se torna a economia.
Quando ele falava em dinheiro controlado por computador, na prática, ele estava dizendo que os mercados conseguem se ajustar melhor com menos interferência humana.
É exatamente isso que o Bitcoin faz: ele se ajusta sozinho, baseado em cálculos matemáticos e em normas pré-programadas conhecidas por todos, sem a interferência arbitrária de uma autoridade central decidindo como agir ou reagir.
A previsão de Friedman focou na eliminação dos intermediários, algo proporcionado pela internet.
A Revolução da Internet e a Eliminação de Intermediários
Milton Friedman faleceu em 2006, dois anos antes da criação do Bitcoin. No entanto, ele teve tempo de observar a internet surgir e se expandir exponencialmente entre os anos 90 e 2000.
Nesse período, a internet eliminou vários intermediários entre produtores e consumidores, impactando setores como gravadoras de discos e editoras de livros.
Friedman percebeu que havia outro intermediário muito mais impactante que também perderia força: o governo. Ele acreditava que a internet poderia reduzir, ou até eliminar, a necessidade de uma terceira parte validando transações comerciais.
Até a criação do Bitcoin, toda transação financeira exigia três partes: quem envia o dinheiro, quem o recebe, e o intermediário.
Este último ficava ali, conferindo se todas as obrigações de dar e receber eram cumpridas, aceitando ou não a transação. Bancos, empresas de cartão de crédito, sistemas de pagamento e provedores de empréstimos sempre atuavam como esse terceiro intermediário.
É claro que o intermediário não trabalha de graça. Ele cobra um preço que eleva o custo total da transação financeira, além de possuir um grande poder de censura.
Se um banco decide que um indivíduo não tem condições de abrir uma conta, ele não terá. Se um provedor de empréstimos impõe uma taxa de juros altíssima, é pegar ou largar.
Se um cartão de crédito decide que uma compra excede algum limite ou representa um problema de segurança, o pagamento não é autorizado. Muitas dessas decisões são arbitrárias, subjetivas, ou mudam com o contexto.
E, como sempre, há seres humanos envolvidos, sujeitos a falhas e decisões baseadas em variáveis desconhecidas ou não aceitas por todos.
Observando a internet eliminar cada vez mais intermediários, Milton Friedman concluiu:
“Uma coisa que está faltando, mas que logo será desenvolvida, é um dinheiro eletrônico confiável, um método pelo qual, pela internet, você consegue transferir fundos de uma pessoa para outra sem que uma sequer conheça a outra.”
Além disso, ele chegou a defender o fim do Banco Central americano, que seria substituído por um sistema automatizado que ajustasse a oferta de dinheiro de acordo com regras pré-definidas.
Bitcoin: O Cumprimento de um Sonho Centenário
Tudo que Milton Friedman desejava para o dinheiro digital foi cumprido pelo Bitcoin, e a inovação foi além do previsto.
O white paper de Satoshi Nakamoto, criando o Bitcoin, foi publicado dois anos após a morte de Friedman, e lá estavam praticamente todas as previsões e desejos que o economista tinha para um bom dinheiro digital.
O Bitcoin eliminou intermediários, permitiu transações diretas entre pessoas pela internet, sem fronteiras, sem a necessidade de uma conhecer a outra, com um sofisticado método de confirmação de transações feito pela própria rede de usuários.
Assim, o Bitcoin eliminou a necessidade de terceiros intermediários.
E talvez o mais importante: o Bitcoin não tem uma autoridade central que dita regras, dizendo quem pode fazer o quê com seu próprio dinheiro.
O papel do governo na emissão de dinheiro não apenas foi diminuído pelo Bitcoin, foi completamente eliminado. Isso vai muito além das previsões mais otimistas de qualquer economista liberal do início.
Pseudonimato e Legitimação: Uma Nova Perspectiva sobre o Dinheiro Digital
No início, o fato de ser um dinheiro pseudônimo que operava à margem das leis tradicionais pode ter criado o estigma de que o Bitcoin era usado para atividades ilegais ou lavagem de dinheiro.
Friedman também previu esse lado negativo de um dinheiro digital: seu potencial uso por pessoas mal-intencionadas para praticar crimes.
No entanto, o Bitcoin utiliza esses fatores para proteger o usuário e seu patrimônio. Ser pseudônimo significa ser um dinheiro igual para todos, independentemente de ser um bilionário empresário americano ou um jovem agricultor em um país em desenvolvimento. As regras são as mesmas.
Como o próprio Friedman disse, se você pega uma nota física de 20 dólares e dá a alguém em pagamento por um produto ou serviço, não há registro disso; você não sabe de onde aquela nota veio ou para onde vai.
Mas não é por isso que as pessoas dirão: “É perigoso, não vamos mais usar notas de dólar porque são anônimas e podem ser usadas para atividades ilegais.”
Operar à margem de leis tradicionais não significa que o Bitcoin é uma terra sem lei. Pelo contrário, o Bitcoin é governado por leis, leis matemáticas, conhecidas por praticamente todos que fazem parte da rede.
Diferente das leis tradicionais, as leis matemáticas não podem ser mudadas ou interpretadas de modo arbitrário por um pequeno grupo de pessoas que eventualmente detêm o poder.
A Construção Sobre Ombros de Gigantes: A Trajetória do Dinheiro Digital
Satoshi Nakamoto subiu nos ombros de gigantes para desenvolver o Bitcoin. Como Newton teria dito sobre suas próprias descobertas, “se enxerguei mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.”
Essa frase pode muito bem se aplicar a Satoshi Nakamoto na criação do Bitcoin.
Claro que Friedman não previu o blockchain, mas suas ideias e o que ele escreveu sobre um dinheiro digital pseudônimo, operado pela internet, com mínima interferência governamental, influenciaram fortemente a lógica por trás do Bitcoin.
Após Friedman expressar esse sonho de um dinheiro digital em 1991, muita coisa aconteceu.
Tivemos o Manifesto Criptoanarquista no ano seguinte, mostrando como a criptografia, o anonimato e o pseudonimato possibilitados pela internet mudariam para sempre a comunicação, a política e a economia.
Esse manifesto inspirou o programador Wei Dai, alguns anos depois, a criar um sistema eletrônico pseudônimo de pagamento chamado b-money.
No mesmo ano, o criptógrafo Nick Szabo descreveu um mecanismo para uma moeda virtual descentralizada chamada Bit Gold, que dispensaria a necessidade de terceiros intermediários em transações financeiras.
São várias ideias, todas amadurecendo, até que finalmente, em 31 de outubro de 2008, um e-mail assinado com o pseudônimo Satoshi Nakamoto (até hoje ninguém sabe quem ele é) foi enviado para uma lista de discussão de criptografia.
Ali estava o white paper original do Bitcoin, um artigo de apenas nove páginas que explicava a ideia e o funcionamento desse novo dinheiro digital: escasso, divisível, portátil, pseudônimo, de transação direta, internacional, e com valor livremente determinado pelos participantes do mercado.
Mas isso só foi possível porque Satoshi Nakamoto estava vendo sobre os ombros de gigantes como Hayek, Friedman e muitos outros que, muitos anos antes, previram que a internet possibilitaria a criação de um dinheiro digital livre da interferência dos governos.
Friedman conseguiu prever a revolução que a internet causaria no dinheiro e descreveu com precisão como funcionaria essa nova forma de moeda.
Um gênio como ele conseguiu ver o Bitcoin antes mesmo do Bitcoin se manifestar. E ainda hoje, há quem sinta dificuldade em compreender exatamente como o Bitcoin funciona, como é possível obter benefícios e proteger sua liberdade e propriedade com ele.
Para aqueles que buscam aprofundar seu conhecimento sobre o Bitcoin, entender seus fundamentos e explorar seu potencial, há um vasto universo de informações esperando para ser descoberto.
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