Dor vs. Sofrimento: A Aceitação Total como Chave para a Paz Interior

Tempo de leitura: 7 min

Escrito por Tiago Mattos
em abril 12, 2025

Dor vs. Sofrimento: A Aceitação Total como Chave para a Paz Interior

Dor Inevitável vs. Sofrimento Opcional: A Chave Para a Paz Interior

Você já parou para pensar na diferença entre dor e sofrimento? Muitas vezes usamos esses dois termos como sinônimos, mas eles representam realidades completamente distintas em nossa jornada.

Entender essa distinção é o primeiro passo para uma vida de maior plenitude e paz.

Dor é Inevitável, Sofrimento é Uma Escolha

A dor faz parte da vida. Ela é inerente à experiência humana e nem sempre está sob nosso controle.

Acidentes acontecem, entes queridos partem, doenças surgem. Inúmeras situações dolorosas podem e vão ocorrer ao longo da sua vida. A dor é um fato.

Mas o sofrimento? Ah, o sofrimento é outra história. O sofrimento é uma decisão.

Geralmente, uma decisão inconsciente, mas ainda assim, uma escolha nossa. É a maneira como escolhemos lidar ou persistir na dor que a transforma em sofrimento prolongado.

A Raiz do Sofrimento: O Legado da Infância

Por que sofremos tanto? Se olharmos para a raiz de muitos de nossos padrões de pensamento, encontramos as sementes plantadas na infância.

Você já se perguntou por que tantas pessoas carregam a identidade profunda de “não sou bom o suficiente”, “não sou inteligente o bastante”, “nunca serei bem-sucedido” ou “não conseguirei sustentar minha família”?

Quando um menino pequeno, de um, dois ou três anos, está em sua essência mais pura, ele é autêntico.

Se um bebê de seis meses derruba o café sem querer, você não o repreende. Se um menino de um ano, aprendendo a andar, derruba algo, você entende que ele ainda não sabe o que está fazendo.

Mas a partir de uma certa idade, o mesmo evento pode levar a uma reprimenda. “Você deveria saber melhor!”, dizem.

Crianças que correm e gritam em público, expressando sua versão mais barulhenta e espontânea, são frequentemente mandadas parar, ficar quietas, ou são repreendidas.

Estudos mostram que uma criança média é repreendida oito vezes mais do que é elogiada. Isso significa que, na maior parte do tempo, a criança pensa: “Eu não sou o suficiente” oito vezes mais do que pensa “Eu sou o suficiente”.

A percepção infantil é que a repreensão dos pais é uma retirada de amor. Para reconquistar esse amor, a criança inconscientemente pensa: “Preciso mudar para não ser repreendido, para ser amado.”

E assim, começamos a nos moldar. Deixamos de ser tão barulhentos, tão espontâneos, e nos tornamos quem precisamos ser para “caber” no mundo.

Nesse processo, em algum momento, abandonamos nosso verdadeiro eu para nos encaixar. Aprendemos, em nossa percepção, que nossa essência não se encaixa com nossos pais e, mais tarde, com a sociedade.

A Busca por Aceitação Externa e a Perda da Identidade

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard abordou como as pessoas se tornam quem não são. Inconscientemente, desejamos ser diferentes do que somos.

Na infância, mudamos para nos encaixar com os pais, depois com outras crianças, na escola, na adolescência.

Depois, na vida adulta, fazemos o que a sociedade ou nossos pais esperam, ou o que nos dará dinheiro para “acompanhar os outros”.

Tudo isso é um disfarce de se encaixar, o que significa abandonar nosso verdadeiro eu. Não ser quem somos de verdade, mas sim quem achamos que precisamos ser para nos encaixar.

É por isso que muitos de nós se tornam “agradadores de pessoas”, abandonando nossa autenticidade para agradar.

Quando decidimos – muitas vezes inconscientemente – que queremos ser diferentes do que somos, duas coisas podem acontecer:

  1. Tentamos ser alguém diferente e falhamos.

    Lutamos e falhamos repetidamente, e então nos desprezamos por não conseguir mudar.

    “Por que não consigo ser diferente?”, nos perguntamos, frustrados com nossa incapacidade de mudar quem somos.

    A base desse pensamento é: “Eu não quero ser quem sou.”

  2. Conseguimos ser alguém diferente e abandonamos nosso verdadeiro eu.

    Nos tornamos uma pessoa completamente diferente, nos perdemos num papel que precisamos desempenhar.

    Como o ator que se perde no personagem e depois não reconhece mais a si mesmo.

Em ambos os casos, a base é a mesma: “Eu não quero ser quem sou.” E em ambos os casos, perdemos nosso verdadeiro eu.

Desconectamos daquele menino que éramos, aquele que colhia flores para sua mãe e encontrava alegria nas pequenas coisas.

Essa desconexão nunca trará felicidade ou verdadeira paz. Resistir ao seu verdadeiro eu causa uma imensa turbulência interna.

O Caminho para a Paz Interior: Aceitação Total

Muitos de nós nos afastamos tanto de quem realmente somos que não sabemos mais quem somos.

É um despertar rude, uma crise existencial ou de meia-idade, onde percebemos que a vida que construímos não é a que desejamos, mas a que achamos que deveríamos ter construído.

Talvez você tenha se tornado um homem “duro” porque o mundo parecia duro, mas no fundo, você é um ser sensível e emocional que só quer amor.

Lembro-me de um momento em que um mentor me disse: “Muitas pessoas não gostam de você.” Fiquei chocado. Eu achava que era ótimo, um sucesso.

Ele então explicou: “A pessoa que você apresenta não é quem você realmente é. Conheço seu verdadeiro eu, e você não é a mesma pessoa que apresenta.”

Eu estava projetando uma imagem agressiva e bruta para me proteger, com medo de ser vulnerável, de mostrar meu verdadeiro eu. No fundo, eu era apenas aquele menino sensível que colhia flores para a mãe.

A única maneira de encontrar a verdadeira paz é ser quem você realmente é.

Parar de resistir à sua essência, parar de tentar ser quem você não é e aceitar plenamente quem você é.

Para se encontrar, você precisa primeiro se perder. Se você se sente perdido, está na posição perfeita para se reencontrar.

Søren Kierkegaard disse que “o desespero desaparece quando paramos de negar quem realmente somos e tentamos descobrir e aceitar nosso verdadeiro eu”.

É uma jornada de autodescoberta contínua, uma exploração ao longo da vida, sem um destino final.

Aceite Cada Aspecto Seu: O “Bom” e o “Ruim”

Quando digo “aceitar quem você é”, refiro-me a cada aspecto seu, tanto o que você considera “bom” quanto o que considera “ruim”.

Não existe lado “bom” ou “ruim” em si. A rotulação de “ruim” nos faz resistir a certas partes de nós. Aceite a totalidade do seu ser.

Existem lados seus que são gentis, amorosos, ótimos de se ter por perto. Aceite-os.

Mas você também deve aceitar aqueles lados que podem ser um pouco egoístas, críticos, arrogantes, ou rudes. Isso é parte da condição humana.

A falta de aceitação dessas partes é o que causa a resistência interna.

Quando você reconhece um lado “egoísta” em si e diz: “Sim, existe um lado egoísta em mim, e está tudo bem, faz parte de ser humano”, você desarma a resistência.

É como uma orquestra de aspectos em sua personalidade. O lado egoísta não precisa fazer um solo o tempo todo, mas ele existe.

Às vezes, ser egoísta pode ter um benefício, outras vezes não.

Aceitação Não é Preguiça: A Verdadeira Motivação

A base de todos os nossos problemas é “eu não quero ser quem sou”. A solução, então, é a mentalidade oposta: “Eu me amo como sou.”

O amor e a aceitação que você busca nos outros, na verdade, residem em aceitar a si mesmo. Amar cada parte de si, tanto o “incrível” quanto o “imperfeito”.

Se eu me aceitar, vou perder a motivação? Vou ficar preguiçoso? Isso é um pensamento selvagem.

Como se tivéssemos que nos odiar para sermos motivados! A motivação não diminui; na verdade, mover-se pelo mundo se torna muito mais fácil.

Não é mais como empurrar uma pedra morro acima. É como pular em um rio e deixar a correnteza levá-lo, aproveitando as coisas boas que surgem no caminho.

A vida se torna mais fluida, porque não há essa resistência interna constante.

Sucesso Exterior vs. Paz Interior: O Que Realmente Importa?

Pensamos que o sucesso nos fará sentir melhor, mas isso é uma ilusão. Há muitas pessoas bem-sucedidas que, internamente, não sentem paz.

Ter dinheiro na conta bancária, uma casa grande, carros caros, roupas de marca – nada disso muda quem você é por dentro. Você continua se sentindo da mesma forma.

Você não se torna mais ou menos humano por ter um milhão de reais. Uma casa não o torna mais humano.

Como o meditador Muji diz: “Você não tem bolsos. Você não tem um armazém.” Você veio nu a este mundo e partirá nu, sem levar nada material.

Isso significa que nada pode ser adicionado ou tirado de você. Como você é, neste exato momento, você já é perfeito.

A única coisa que falta é sua aceitação de si mesmo. Aceite-se como você é, em todos os seus aspectos. É a única maneira de encontrar a verdadeira paz e viver uma vida autêntica.

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