Acredito que levamos o pensamento positivo longe demais.
Afirmações como “Estou feliz, estou feliz, estou feliz” podem ser vistas em obras como “O Segredo”, de Rhonda Byrne, um filme que popularizou a Lei da Atração.
Nele, há vários exemplos e citações que sugerem que doenças graves, como o câncer, podem ser curadas através da ideia do pensamento positivo.
Neste post, exploraremos três motivos pelos quais o pensamento positivo pode, na verdade, ser prejudicial.
Abordaremos o paradoxo do progresso, o efeito first e o efeito irônico.
Discutiremos por que uma abordagem mais realista, ou até mesmo um toque de pensamento negativo, pode nos ajudar a alcançar nossos objetivos e viver vidas mais saudáveis, felizes e produtivas.
No universo dos gurus de autoajuda, há a crença de que pensar positivamente nos ajuda a alcançar objetivos e fazer os problemas desaparecerem.
Essa ideia tem seus méritos, mas o perigo está em levá-la ao extremo.
Até certo ponto, o pensamento positivo pode ser uma excelente ferramenta para reduzir a ansiedade e pensamentos intrusivos.
Como nosso cérebro subconsciente aparentemente não distingue o real do imaginário, visualizar resultados positivos pode diminuir a preocupação e aumentar a alegria.
Um estudo interessante do King’s College London, com 102 pessoas sofrendo de transtorno de ansiedade generalizada, dividiu os participantes em dois grupos.
Um foi instruído a pensar positivamente sobre o que os preocupava, e o outro, a pensar positivamente em geral.
Após um mês, ambos os grupos mostraram uma redução significativa nos níveis de ansiedade, mesmo aqueles que pensavam positivamente de forma mais ampla.
Claramente, pensar positivamente pode ser útil nesses contextos.
Contudo, essa mesma característica do nosso cérebro – não distinguir o real do imaginário – é o que torna o pensamento positivo problemático em certos contextos.
Comecemos pelo paradoxo do progresso.
O Paradoxo do Progresso
O paradoxo do progresso sugere que, ao pensar, explicar ou visualizar exaustivamente um resultado, nos enganamos, acreditando que já o alcançamos, mesmo sem ter dado os passos necessários para atingir o objetivo desejado.
Por exemplo, no meu próprio processo de escrever um livro, é fácil me convencer de que estou sendo produtivo e progredindo ao passar horas em pesquisas superficiais ou navegando em redes sociais.
Tudo isso parece trabalho, mas não se traduz em palavras escritas.
Assim, acabo me iludindo, pensando que avanço, quando na verdade não estou fazendo progresso algum.
O conselho que me daria é: pare de pensar em progredir e comece, de fato, a progredir.
Ryan Holiday, em seu livro “O Ego é o Inimigo”, narra uma história similar sobre Upton Sinclair.
Nos anos 30, antes de concorrer ao governo da Califórnia, Sinclair escreveu um livro no passado, detalhando tudo o que realizaria como governador.
Ele visualizou o futuro de forma extrema.
No entanto, após publicar o livro, perdeu o interesse pela campanha e, de fato, perdeu a eleição.
É provável que tenha esgotado sua energia ao visualizar tanto o futuro, sem realmente fazer o trabalho.
Esse é o paradoxo do progresso, uma das razões pelas quais visualizar um resultado positivo pode ser contraproducente.
O Efeito First
Agora, vamos ao chamado efeito first.
Em outra série de experimentos, pessoas com sede foram convidadas a visualizar o ato de beber um copo de água gelada.
Os pesquisadores notaram que a energia e a motivação para realmente pegar uma bebida diminuíram naqueles que a visualizaram.
Fisicamente, continuavam com sede, mas psicologicamente, haviam se convencido de que não precisavam beber água.
Assim, os sentimentos e o pensamento positivos podem nos dar uma falsa sensação de segurança, de que estamos indo bem e conquistando coisas, mas a realidade é completamente diferente.
O Efeito Irônico
Há, contudo, pesquisas que demonstram que o pensamento positivo pode, por vezes, nos fazer sentir ainda pior, e isso é conhecido como o efeito irônico.
Um estudo investigou a utilidade das autoafirmações, especificamente a frase “Eu sou uma pessoa amável”.
As autoafirmações são um pilar do pensamento positivo para promover a felicidade, mas a pesquisa revelou que pessoas com baixa autoestima sentiram-se ainda pior ao repetir afirmações como essa.
O psicólogo de Harvard Daniel Wegner chama isso de efeitos irônicos, similar à ideia de que, se tentamos não pensar em um urso polar, acabamos pensando nele.
O mesmo pode ocorrer com o pensamento positivo: se alguém com baixa autoestima repete uma afirmação positiva, o ato de repeti-la incessantemente pode, ironicamente, evocar contraexemplos, reforçando a sensação de que a afirmação não é verdadeira e, assim, piorando o sentimento sobre si mesmo.
Isso demonstra que, às vezes, o pensamento positivo não é tão útil quanto parece, especialmente se não considerarmos seus efeitos de segunda ordem.
A Solução: Abraçando a Visualização Negativa
Acredito que a solução é redefinir a forma como encaramos pensamentos negativos, talvez até abraçando a visualização negativa.
Pode parecer contraintuitivo, mas pensar negativamente sobre o futuro, em vez de apenas positivamente, pode nos ajudar a alcançar objetivos com mais facilidade.
Há duas abordagens principais para isso: o contraste mental e o pessimismo defensivo.
1. Contraste Mental
Método número um: contraste mental.
Visualizar um resultado positivo geralmente tem um efeito relaxante no corpo.
Imaginar-se vencendo algo, por exemplo, reduz a pressão arterial sistólica, nos deixa mais relaxados e diminui a ansiedade.
Se alguém se sente particularmente ansioso, como o estudo anterior mostrou, o pensamento positivo pode, de fato, aliviar essa ansiedade.
O problema é que, para algo que exige ação e iniciativa, uma leve dose de ansiedade pode ser bastante útil para melhorar nosso desempenho.
Níveis reduzidos de ansiedade podem até mesmo diminuir nossa performance.
Em minha própria vida, percebi isso durante os exames de medicina.
Naqueles em que pensava “Ah, isso será fácil”, acabei sendo complacente nos estudos.
Já nos exames em que sentia “Ok, isso é realmente difícil”, com um leve nível de ansiedade e estresse, dedicava mais esforço aos estudos e, consequentemente, me saía melhor.
Da mesma forma, ao gerenciar meu programa de formação, sempre tenho uma leve ansiedade: “E se ninguém se inscrever?” ou “E se o curso não for bom?”.
Isso me motiva a investir tempo e esforço significativos na divulgação e no aprimoramento do material, buscando a excelência.
Se não tivesse essa ansiedade, se fosse mais complacente e menos preocupado com os resultados, teria dedicado muito menos esforço e o curso não seria tão bom quanto é, se me permite dizer.
Para alcançar nossos objetivos sem cair na armadilha do pensamento positivo, existe o interessante método WOOP (Wish, Outcome, Obstacle, Plan – Desejo, Resultado, Obstáculo, Plano).
A ideia é que, ao planejar uma meta, não devemos focar apenas no desejo e no resultado final – como costumamos fazer –, mas também nos obstáculos (o segundo ‘O’) e no plano (o ‘P’) para superá-los.
A psicóloga Gabriele Oettingen, criadora do método, afirma que o contraste mental “ajuda a contornar os efeitos calmantes do sonhar e mobiliza os sonhos como uma ferramenta para impulsionar a ação direcionada”.
Essa citação é do livro “Repensando o Pensamento Positivo”.
Em suma, sonhar grande e pensar positivamente é bom, mas precisamos contrastar isso mentalmente com os obstáculos e o plano para superá-los.
Invariavelmente, encontraremos barreiras no caminho, e focar-se apenas no pensamento positivo nos ilude, fazendo-nos crer que o percurso será mais fácil do que realmente é.
2. Pessimismo Defensivo
A ideia de visualização negativa e contraste mental não é nova.
Os estoicos, uma antiga escola de filosofia grega, chamavam isso de premeditatio malorum – prever a adversidade.
Essa prática nos encoraja a considerar todas as formas pelas quais algo pode dar errado.
Hoje, chamamos isso de pessimismo defensivo.
Em diversos estudos, pesquisadores descobriram que, ao estabelecer baixas expectativas e visualizar cenários pessimistas, os pessimistas defensivos otimizam seu desempenho em várias tarefas, desde jogos de dardos e problemas de matemática até a realização de objetivos de vida.
Essa abordagem pode ter impacto ao longo de toda a vida.
Um estudo de mais de 30 anos com 10.000 alemães, por exemplo, revelou que idosos que subestimavam sua futura satisfação de vida (sendo mais pessimistas sobre a diversão que teriam) acabaram vivendo mais e apresentando melhores resultados de saúde.
Embora seja correlação e não causalidade, é interessante notar como essa leve dose de pessimismo sobre o futuro pode se traduzir em resultados de saúde tangíveis.
A visualização negativa é uma excelente prática; eu a uso constantemente.
Ao tomar decisões, penso: “Qual é o pior cenário possível? O que pode dar errado?”.
Geralmente, percebo que essas coisas não são tão ruins.
Ser rejeitado, um projeto não funcionar ou receber um comentário negativo não são o fim do mundo.
Além disso, ao visualizar o resultado negativo, posso tomar medidas para mitigar os riscos de que isso aconteça.
Há uma bela citação dos estoicos que diz que “muitas vezes sofremos mais na imaginação do que na realidade”.
Prever a adversidade, o pessimismo defensivo e a visualização negativa nos ajudam a reconhecer esse sofrimento imaginário e, assim, evitam que ele se materialize na realidade.
Como talvez alguns de vocês saibam, sou um grande entusiasta do estoicismo.
É a escola de filosofia que mais sigo e à qual atribuo meu elevado nível de felicidade e tranquilidade.
Muitos me veem como inabalável, e isso, em grande parte, deve-se à imersão nessa filosofia por anos.
Espero que esta perspectiva sobre o pensamento positivo e o estoicismo tenha sido útil.
Reflita sobre as adversidades e prepare-se para superá-las.


