O Cérebro Queima Calorias Suficientes Para Emagrecer? Desvendando o Mito do Gasto Calórico Mental!
Você já ouviu dizer que o cérebro pode queimar milhares de calorias em um único dia, especialmente durante atividades mentais complexas como jogar xadrez em alto nível?
Muitos indivíduos, na esperança de emagrecer sem a necessidade de exercício físico, começam a sonhar com a possibilidade de queimar calorias apenas jogando videogames complicados, lendo livros difíceis ou estudando para provas e concursos.
Infelizmente, essa ideia não passa de um mito. Neste artigo, vamos explicar a origem dessa crença amplamente disseminada na internet e, em seguida, mostrar como você pode realmente usar seu cérebro de forma inteligente para sua saúde.
A Origem de um Engano Disseminado
A ideia de que um grão-mestre de xadrez pode queimar 6 mil calorias por dia, perdendo vários quilos em uma única competição, é surpreendente.
Essa história ganhou notoriedade por ter sido veiculada por grandes redes de mídia, que, buscando credibilidade, citaram um acadêmico respeitado, professor de uma renomada universidade e especialista em neurologia e fisiologia.
Mas será que todos os títulos e prestígios nos permitem concluir que tudo o que um especialista diz está correto? É crucial lembrar que mesmo grandes nomes podem cometer equívocos.
Diplomas e premiações, por si só, não validam uma argumentação. É um erro de raciocínio ser convencido simplesmente porque alguém tem um diploma ou recebeu um prêmio.
O “argumento de autoridade” (em latim, argumentum ad verecundiam) é um instrumento perigoso que pode silenciar o pensamento livre.
Apenas ter títulos de prestígio ou ser considerado um indivíduo brilhante não é garantia de nada; acreditar inocentemente que uma pessoa inteligente ou premiada sempre tem as ideias corretas é um erro.
A Ciência Desmente a Queima de Calorias Extrema
Quando a história de 6 mil calorias queimadas em um único dia por um enxadrista começou a circular, muitos se surpreenderam.
Ao buscar mais detalhes, descobriu-se que o acadêmico mencionou informalmente esses números, mas sem citar a fonte da informação.
Em um de seus livros, uma nota de rodapé mencionava um estudo de 1971 como o trabalho definitivo sobre jogadores de xadrez.
Esse estudo notou que alguns indicadores fisiológicos em enxadristas, como respiração e contração muscular, podiam ser triplicados durante partidas.
Daí, a impressão de que talvez se tenha extrapolado: se uma pessoa normal gasta cerca de 2 mil calorias por dia, um grão-mestre, com indicadores triplicados, poderia gastar 6 mil. Se essa foi a lógica utilizada, ela é falha.
Equipamentos de medição de calorias queimadas não são confiáveis para atividades intelectuais.
Talvez você já tenha escutado de outras fontes que pensar muito queima calorias. De fato, o cérebro consome bastante energia, mas o problema é que algumas iniciativas de marketing mediram batimentos cardíacos de jogadores de xadrez para estimar calorias queimadas.
Durante atividades com movimento muscular, o batimento cardíaco serve como bom indicador. Porém, quando não há atividade física envolvida, um coração acelerado nem sempre está queimando calorias por trabalho muscular.
Por exemplo, o batimento cardíaco pode aumentar devido ao estresse. O corpo entende uma situação de estresse como perigo, e o coração acelera, aumentando o nível de glicose na corrente sanguínea para fornecer energia súbita para lutar ou correr.
Se o indivíduo permanece parado, com estresse e glicose extra sem movimento muscular, essa energia não é queimada de forma significativa.
A ciência já fez novas descobertas. Está comprovado que um indivíduo não pode gastar 6 mil calorias apenas pensando.
O estudo de 1971 e o livro que o mencionou (publicado em 2004) não apresentam boa evidência científica de que jogadores de xadrez podem triplicar a queima normal de calorias.
Em 2008, um estudo mais recente mostrou que a queima de calorias realmente aumenta durante uma partida de xadrez, mas o aumento é praticamente insignificante.
O corpo físico continua praticamente imóvel, então por mais que o cérebro de um mestre de xadrez trabalhe intensamente, queimar 6 mil calorias em uma competição sem esforço físico é uma mensagem equivocada.
Como o Cérebro Realmente Gasta Energia
O cérebro consome, de fato, uma boa parte da energia total do corpo. O cérebro de um adulto comum, em repouso, consome de 20% a 25% da energia geral do corpo, especialmente na forma de glicose.
Isso significa de 350 a 450 calorias por dia, o equivalente a três ou quatro bananas, mais ou menos.
O cérebro é o órgão que mais consome energia, e toda essa energia é usada pelos neurônios para se comunicar.
Seu cérebro está sempre pensando, não importa se você está acordado ou dormindo, assistindo televisão ou lendo um livro.
A atividade cerebral não é sempre idêntica. Atividades rotineiras ativam certas áreas do cérebro, atividades mais criativas ativam outras, e aprender coisas novas ativa ainda outras.
Seu cérebro consome mais energia quando você está se esforçando. Sim, ele consome mais calorias durante tarefas cognitivas difíceis, porém não é muito mais do que o normal.
Quando falamos de exercício físico, a relação é diretamente proporcional entre o esforço e a quantidade de calorias queimadas. Uma caminhada leve gasta menos calorias do que uma corrida intensa.
Com o cérebro, a relação não acontece na mesma proporção.
Mesmo ao realizar uma atividade cognitiva muito, muito difícil – quando você se esforça para aprender algo novo, está quebrando a cabeça para resolver um problema complexo ou joga uma partida de xadrez altamente competitiva –,
as regiões do cérebro ativadas pela tarefa recebem uma energia maior, mas esse aumento é praticamente insignificante. Não significa que você está queimando calorias e emagrecendo através do pensamento.
Seja aprendendo a tocar piano ou assistindo seu filme favorito pela décima vez, o consumo de energia do seu cérebro permanece mais ou menos constante e praticamente não altera a quantidade de glicose metabolizada.
E quanto a atividades que exigem muito autocontrole, como resistir a um cigarro? Embora exijam esforço mental, a ideia de que a força de vontade é um recurso que se esgota e que isso gasta muita glicose, deixando-o sem força para resistir a tentações, está sendo questionada.
De qualquer forma, você não vai queimar gordura pensando, nem ter perda de peso por meio de esforço mental.
O Verdadeiro Benefício do Treino Cerebral para a Sua Saúde
Se pensar não vai te ajudar a emagrecer diretamente, ainda assim temos boas notícias.
A ciência já provou que existe uma analogia entre músculos e cérebro, entre atividades físicas e atividades mentais.
Da mesma forma que suas pernas ficam mais fortes ao fazer um agachamento, seu cérebro também fica “mais forte” quando você tem uma rotina de exercícios mentais.
É um mito a ideia de que um indivíduo nasce e será para sempre cem por cento inteligente ou “burro”.
A genética tem uma influência inicial, porém o que mais define o quão inteligente um indivíduo se tornará é o que ele decide fazer com seu cérebro.
Quem passa horas e horas em atividades passivas, como redes sociais e televisão, tende a perder agilidade mental com o tempo.
Por outro lado, quem está sempre aprendendo algo novo, se desafiando e fazendo atividades cognitivas difíceis, acaba desenvolvendo o cérebro e aumentando sua própria capacidade.
Pensar não vai te ajudar a emagrecer diretamente, porém, se você treinar seu cérebro, isso pode indiretamente beneficiar tanto sua saúde mental quanto sua saúde geral.
O cérebro consome uma boa parte da energia do nosso corpo, sim. No entanto, a ciência já derrubou o mito de que é possível queimar mais calorias com atividades mentais que exigem grande esforço.
Seja você assistindo a um filme, navegando em redes sociais ou jogando contra o campeão mundial de xadrez, o consumo geral de energia do seu cérebro será mais ou menos o mesmo.
Ainda assim, desenvolver o cérebro e aumentar sua inteligência pode, indiretamente, te ajudar a ter uma vida mais saudável.
Indivíduos mentalmente ativos geralmente são também mais bem informados sobre alimentação e exercícios, e mesmo que ainda não sejam fisicamente ativos, provavelmente já desenvolveram um certo discernimento que os levará a mudar de vida e ter uma prática mais saudável.
Para desenvolver seu cérebro, submeta-o a tarefas cognitivas desafiadoras: leia livros, domine técnicas de memorização, adquira conhecimento e aprenda novas habilidades.
Liberar o potencial de sua inteligência é um passo fundamental para uma vida mais plena e com mais saúde.


