Simplismo: A Armadilha do Pensamento Binário e Como Superá-la
Você já se pegou pensando em termos de “tudo ou nada”? Bem contra o mal, certo contra o errado, “coxinha” ou “petralha”?
Essa é a essência do simplismo: a tendência de reduzir a complexidade do mundo a apenas dois lados opostos, ignorando qualquer nuance. É a mentalidade que insiste em saber se o correto é “biscoito” ou “bolacha”, sem espaço para a possibilidade de ambos coexistirem.
Quem sofre de simplismo costuma ler um artigo e sentir-se obrigado a concordar cegamente ou a discordar totalmente. Para ele, não há meio-termo.
“Afinal, você é a favor ou é contra?”, questionam, vendo a ponderação como fraqueza, coisa de quem “está em cima do muro” ou é “frouxo”. Para o simplista, ter um posicionamento firme – mesmo que equivocado – é uma questão de honra, algo a ser defendido com unhas e dentes.
A Busca pela Vitória, Não pelo Entendimento
Numa discussão, o objetivo de quem vive no simplismo não é compreender o que o outro diz. A compreensão, para ele, é um luxo, talvez até uma falha. Ele acende um “radar” para identificar brechas e falhas no argumento alheio, preparando-se para o contra-ataque e para sair vitorioso.
No fundo, porém, o simplista sequer deseja entrar em um debate. Pensar profundamente é cansativo para ele.
Ele anseia por um mundo onde haja uma hegemonia de ideias, onde a “gentalha” com pensamentos “errados” ficasse calada.
A comunicação é vista como poder, e o poder exige responsabilidade. Nesse cenário, o simplista se vê como um dos “homens bons”, qualificados para falar, enquanto o restante seria “burro” e deveria permanecer de boca fechada.
Para ele, é óbvio: deixar pessoas “desqualificadas” falando sobre o que não entendem só geraria caos. Um jovem sem experiência, por exemplo, não deveria abrir a boca na frente de adultos e mais velhos.
A Autoridade do Simplista e o Perigo da Burrice Contagiosa
Para o simplista, ele é a autoridade máxima no assunto. Quem pensa diferente, além de ser “burro”, é perigoso, pois a “burrice” é contagiosa.
Quando esses indivíduos abrem a boca, eles “contaminam” outras pessoas, especialmente aquelas que ele considera “simples” e fáceis de influenciar. Na sua visão, os “homens bons” têm a obrigação de controlar esses “baderneiros irresponsáveis”.
A liberdade de expressão, para ele, não é para qualquer um; tem limites e só pode ser exercida por aqueles que pensam “corretamente”. Não se trata de censura, mas de uma autoproclamada “defesa da Verdade”, evitando que pessoas “desqualificadas” falem bobagens.
A Confusão Entre Pessoas e Ideias: Idolatria e Intolerância
O simplismo também se manifesta na confusão entre quem fala e o que é falado.
De um lado, a idolatria: “Você é meu guru, concordo cegamente com tudo que você disse e dirá. Por favor, me revele a verdade.”
Do outro, a intolerância: “Você é nojento, merece sofrer. Não me interessa se seu argumento faz sentido, não quero ouvir nada que venha de você para não me contaminar.”
Quer um exemplo? Imagine se alguém lhe apresenta uma frase profunda e inspiradora, mas ao descobrir a autoria, a reação é imediata: “Que nojo! Você está recitando [nome de uma figura histórica controversa]? Você é [rótulo ofensivo]! Não fale mais comigo!”
Tanto a idolatria quanto a intolerância são formas simplistas que misturam pessoas e ideias, resultando em julgamentos e rotulações.
Vivendo na Bolha da Confirmação
Para o simplista, o mundo se divide entre “gente adequada” e “gente inadequada”. Ele precisa provar a si mesmo e ao mundo que está do “lado certo”.
Para manter essa crença inabalável, o simplista vive dentro de uma bolha, buscando apenas mais do mesmo – informações que reforçam suas convicções preexistentes. Essa redoma o protege de qualquer ponto de vista diferente.
Ele não convive com quem pensa diferente, precisa excluir, filtrar e bloquear.
Suas escolhas são repletas de vícios de cognição. O simplista busca atalhos para entender o mundo sem ter que pensar muito. Por isso, ele dá muito valor às aparências.
Ele concorda ou discorda de alguém não pelo conteúdo do argumento, mas pela eloquência, carisma, cor da pele, diploma, dinheiro, carro.
Ou pela origem da informação: se o que é dito está em um livro ou apareceu na televisão.
O simplista precisa de um mundo simples, que faça sentido, onde para todo efeito há uma causa fácil de explicar, uma relação linear. Para todo problema, há um culpado, um vilão.
O Convite à Autonomia Intelectual: Um Caminho Além do Simplismo
A boa notícia é que podemos ajudar a diminuir o simplismo. Acreditamos que a pessoa que sofre de simplismo pode, sim, desenvolver a capacidade de autonomia intelectual, raciocínio crítico, comunicação, convívio e colaboração.
Como fazer isso? Algumas vezes, questionando. Outras, dando um toque sutil. Em certas ocasiões, oferecendo um abraço com empatia. Em outras, apresentando uma aula teórica. E, principalmente, através do exemplo.
O primeiro passo para diminuir o simplismo é olhar para o espelho. É procurar o simplismo dentro de nós mesmos.
Quantas vezes, sem perceber, adotamos discursos simplistas? O desejo de melhorar, de escutar críticas e de evoluir, mesmo que seja difícil, é o que nos impulsiona.
Contamos com você nessa jornada. Diminuir o simplismo pode ser uma bela causa para um futuro melhor. Fazer a nossa parte pode significar menos pessoas presas nessa armadilha, vivendo uma vida rica, com compreensão e capacidade de adquirir mais conhecimento.
Educação: Muito Além dos Muros da Escola
Muitas vezes, ouvimos que o que falta é investimento em educação. E é verdade, mas a educação vai muito além dos muros da escola.
Tudo o que conversamos neste texto também é educação, e é essa educação expandida que aprimorará nossa sociedade.
A vida além do simplismo nos permite concordar em partes e discordar em partes, ter empatia sem precisar concordar.
Ela nos liberta da necessidade de nos sentirmos superiores aos outros, de achar que a população é uma “criançinha burrinha” que precisa de “papais protetores”.
Esses “papais protetores” decidiriam o que pode ou não ser feito, o que pode ou não ser dito, quem pode falar e quem deve ficar de boca fechada.
Podemos discordar mantendo o respeito. Podemos defender nossos direitos sem violar gratuitamente os direitos alheios.
Podemos aprender a permanecer abertos a mudanças e crescer quando as mudanças fazem sentido.
A vida além do simplismo aceita que nem sempre é possível traçar uma linha clara de causa e efeito. As situações do mundo real são multifatoriais, raramente uma simples briga entre dois lados inimigos.
Todos nós fazemos parte de algo complexo.
Vamos, juntos, contribuir para uma vida além do simplismo.


