Sorte ou Habilidade? Desvendando o Papel do Acaso no Seu Caminho para o Sucesso
O quanto do seu sucesso é pura sorte e o quanto do seu fracasso é resultado de suas próprias ações? Muitas vezes, somos iludidos pela ideia de que tudo em nossa vida se resume a competência e esforço, mas a verdade é que o acaso desempenha um papel muito maior do que imaginamos.
Este artigo se inspira nos princípios abordados por um renomado livro que explora como a sorte e o azar moldam nossas vidas.
O Perigoso Jogo da Roleta Russa
Imagine um magnata excêntrico que oferece 10 milhões de Reais para alguém jogar roleta russa – aquele jogo macabro onde um revólver tem apenas uma de suas seis câmaras carregadas.
São cinco chances em seis de sair vivo e com o prêmio, mas uma chance em seis de morrer. Você toparia o desafio?
Digamos que alguém aceite e, por pura sorte, sobreviva. Pronto! Temos agora uma história incrível de um jovem multimilionário que estamparia capas de revistas e jornais, recebendo admiração e louvor.
“Como ele conseguiu tanto dinheiro sendo tão jovem?”, “Ele deveria escrever um livro mostrando sua infância e como alcançou o sucesso em tão pouco tempo!”.
Essa é uma metáfora poderosa da realidade. A moral da história é buscar ser mais cuidadoso e não superestimar as incríveis habilidades de jovens milionários. Talvez tenha sido o acaso que pavimentou a estrada deles.
E se isso for verdade, dificilmente você conseguirá replicar o que fizeram. E, para ser sincero, dificilmente eles mesmos se manterão no topo por um longo período de tempo. Se quiserem jogar novamente o jogo da roleta russa, em algum momento será a vez do projétil.
A Complexidade da Vida Real
A vida ainda é mais complexa que um jogo de roleta russa. Nela, calcular nossas probabilidades é muito mais difícil.
Primeiro, porque na vida esquecemos que existem “balas”. Sob um falso senso de segurança, dirigimos em alta velocidade e acreditamos que nada de ruim poderá acontecer conosco.
Segundo, mesmo que conheçamos alguém que foi atingido pela bala, pensamos que aquilo que acontece com os outros não vai necessariamente acontecer com a gente.
Conheço amigos que já capotaram um carro por excesso de velocidade, mas vi outros amigos bebendo demais e depois dirigindo com seus próprios filhos no banco de trás.
E por último, podemos até ficar rico jogando roleta russa com um magnata excêntrico ou apostando todo o nosso dinheiro na alta ou baixa de alguma moeda.
Mas já pensou nos custos de estudar errado? As pessoas normalmente não pensam assim. Pelo contrário, se um homem se dá mal, atribui ao azar; se se dá bem, credita às suas habilidades.
Até que ponto sua história de sucesso, na verdade, não foi uma história de sorte?
A Ilusão da Previsão Perfeita
Para testar nossa percepção de azar ou sorte, vejamos outra história que, felizmente, acarreta menos malefícios que a roleta russa.
Imagine que somente você vem recebendo uma mensagem de um desconhecido informando se o mercado de ações irá subir ou descer naquele mês.
No primeiro mês, a previsão se concretiza, mas você não dá muita bola. No mês seguinte, a mesma coisa acontece. No terceiro mês, também. No quarto, a história se repete.
Já fazem quatro meses que a mensagem misteriosa está acertando o futuro, e você começa a ficar intrigado. Passam-se mais dois meses, os acertos continuam chegando, e você acha aquilo inacreditável.
Mas, dessa vez, a mensagem vem acompanhada de uma oferta: ele não irá parar de enviar as previsões, mas se você quiser aproveitar a oportunidade, ele abrirá um fundo de investimento onde você poderá participar com uma cota mínima de 10 mil reais.
Você fica perplexo com essas previsões e, mesmo com o pé atrás de investir em previsões do futuro — algo que você sabe que não existe — você resolve aceitar a oferta. Dois meses depois, percebe que o dinheiro evaporou e que nunca mais você conseguirá recuperar o que investiu.
O que aconteceu aqui? O ponto central é o seguinte: o vigarista tinha uma lista de 10 mil pessoas.
No primeiro mês, ele enviou a mensagem que o mercado ia subir para cinco mil e que iria cair para as outras cinco mil. No segundo mês, ele selecionou apenas as 5 mil pessoas para as quais enviou a previsão correta e repetiu o processo. No terceiro, selecionou as 2.500. No quarto, as 1.250. Na quinta, as 625 pessoas. Na sexta, as mais de 300 pessoas. Foi ali que ele conseguiu as vítimas.
Se apenas cem dessas 300 pessoas investirem com ele, ele se tornará um milionário.
Podemos extrapolar essas situações para a vida em si. Se, por exemplo, 10 milhões de pessoas investem na Bolsa de Valores, com certeza encontraremos um desses que passou décadas com a carteira sempre vencedora todos os anos, por pura sorte.
Como diz o ditado, “até mesmo um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes por dia”. Isso nos mostra que até algo que não faz sentido pode dar resultados em alguns momentos. Mas, além disso, precisamos trabalhar para que possamos vencer apesar da sorte ou do azar.
A Atitude Cautelosa de Odisseu
Para ilustrar ainda mais, vamos a uma história inspiradora, extraída da obra épica “Odisseia”.
Para quem não conhece, esta obra épica narra as aventuras de Odisseu (Ulisses). Uma de suas histórias conta que ele e sua tripulação estavam passando por uma ilha conhecida pelo canto das sereias, tão bonito que fazia os marinheiros enlouquecerem a ponto de se jogarem ao mar, perecendo em suas ondas.
Odisseu, destemido, desejava ouvir o canto das sereias e elaborou um plano. Ele pediu para que sua tropa o amarrasse ao mastro do navio, enquanto seus tripulantes colocassem cera em seus próprios ouvidos.
Assim, os marinheiros trabalhariam normalmente, mas sem ouvir absolutamente nada, enquanto ele permaneceria totalmente amarrado ao mastro, ouvindo toda a beleza do canto. Seu plano foi bem-sucedido.
Podemos aprender muito com Odisseu. Mesmo sendo um dos maiores guerreiros existentes, ele sabia do que era capaz e não quis contar com a sorte. Ele quis vencer apesar da sorte ou do azar. E nós precisamos fazer exatamente o mesmo.
Não somos tão inteligentes ou fortes quanto imaginamos para tentar lutar contra os “cantos das Sereias” da nossa própria vida. É realmente necessário termos consciência daquilo que pode nos derrubar e criar mecanismos para que possamos sobreviver.
Para que possamos fazer como Odisseu: se for preciso, devemos nos amarrar para não cair em tentação.
Muito de nossas vidas é fruto da sorte e do azar. Nosso trabalho é não ser iludido pelo acaso, e sim tomar as rédeas do que podemos controlar.


