Desvendando a Ilusão de Foco: O Segredo da Verdadeira Felicidade
Será que a verdadeira felicidade está atrelada àqueles grandes marcos da vida? Aquele momento em que você finalmente conquistar um milhão na conta bancária, alcançar o emprego dos sonhos, ou ter uma aparência impecável? A verdade pode ser surpreendente.
A Armadilha da Felicidade Condicional
Lembro-me de um conhecido de longa data que vivia insatisfeito, raramente sorria. Ele se queixava de que sua vida não estava boa porque não tinha um relacionamento.
Quando finalmente começou a namorar, passou a reclamar que não tinha um emprego. E quando conseguiu o trabalho tão desejado, lamentava por ainda não ter filhos. Agora que os tem, certamente estará reclamando de outra coisa, não é mesmo?
Você conhece alguém assim? É um padrão comum: condicionamos nossa felicidade a fatores externos. “Ah, se eu tivesse menos gordura abdominal…”, “se eu tivesse uma mansão…”, “se eu abrisse minha própria empresa… aí sim eu seria feliz!”
Essa forma de pensar é tão difundida que psicólogos e cientistas a estudaram a fundo. A conclusão de quase todos os estudos é que essa mentalidade não passa de uma ilusão: a Ilusão de Foco.
Entendendo a Ilusão de Foco
A Ilusão de Foco é a crença de que certas coisas são importantes apenas pelo fato de você estar pensando nelas, focando sua energia nelas como se fossem a chave da sua felicidade.
Este conceito, criado pelo psicólogo e economista Daniel Kahneman, revela que os eventos externos que consideramos cruciais só parecem importantes porque estamos concentrados neles.
Ao cair nessa armadilha, você acaba criando sua própria razão para se sentir infeliz.
O Exemplo do Corpo Ideal
Pense em um homem que está acima do peso, deseja desesperadamente emagrecer, ganhar massa muscular e melhorar sua aparência.
Ele está tão focado nesse objetivo que só se permite ser feliz quando consegue seguir a dieta, fazer os exercícios e perder alguns quilos. A ilusão aqui é que estar em forma significará uma vida feliz a longo prazo.
Ao colocar todo o foco na própria forma física, ele passa a considerar que outros aspectos da vida estão indo mal porque ele está fora de forma.
Muitas vezes, o problema nada tem a ver com o físico, mas ele acredita que, se estivesse em forma, conseguiria mais clientes, salvaria seu casamento, teria mais disposição para ler mais livros e progredir na carreira.
Por Que a Ilusão de Foco Parece Tão Real?
A ilusão de foco parece convincente porque nos impede de enxergar o longo prazo. É claro que ser mais bonito ou ter mais dinheiro parece trazer felicidade, certo? Errado.
A associação que fazemos entre felicidade e eventos externos é, quase sempre, apenas uma verdade aparente, uma meia-verdade.
Comprar uma roupa nova, iniciar um relacionamento, comer um bolo de chocolate – tudo isso aumenta nossa satisfação instantânea. Você fica mais contente naquele momento e até alguns momentos depois. Mas a verdade é que essa felicidade não se sustenta no longo prazo.
O problema é que aumentar nossa percepção de felicidade no momento da conquista confunde nossa habilidade de medir com exatidão nosso grau de satisfação com a vida.
Quando estamos focados em conquistar algo novo, automaticamente não estamos focados em perceber tudo aquilo que já somos e que já temos.
Nosso foco está no que falta, e não no que já conquistamos. E assim, temos a ilusão de que, se conquistarmos tudo o que falta, aí sim a vida será perfeita.
A Adaptação Hedônica: A Verdade Inconveniente
A conquista de objetivos externos não garante a felicidade duradoura. E você não é uma exceção à regra.
Você pode imaginar que a ilusão de foco faz sentido, mas que não se aplica ao seu caso específico.
Por exemplo, os dados mostram que as taxas de divórcio estão cada vez mais altas, mas todas as pessoas que se casam acreditam que esses dados não se aplicam a elas – que com elas será diferente, que o casamento delas sim vai durar.
Acreditar que você é uma exceção à regra é um pensamento muito comum, e isso também faz parte da própria ilusão de foco.
Por algum motivo, você ainda considera que sim, seria mais feliz se tivesse milhões na conta bancária, se perdesse aqueles quilos de gordura, ou se fosse dono do seu próprio negócio.
É claro que, no momento em que você conquista cada uma dessas coisas, sua felicidade aumenta.
Mas depois de um tempo, acontece um fenômeno chamado adaptação hedônica. A adaptação hedônica mostra que nos adaptamos a praticamente qualquer tipo de situação, e aí nosso nível de felicidade volta ao que era antes.
Pesquisas mostram que mesmo eventos significativos como casamento, o nascimento de um filho, ou até a perda de um ente querido, não afetam a felicidade da pessoa no longo prazo da forma como imaginamos.
Depois que a mudança e o fator novidade passam, os participantes das pesquisas retornam ao que eram antes.
Então, você não é uma exceção à regra. Não caia na armadilha de adiar sua vida para depois de conquistar um objetivo. Não faça isso. Aprenda a identificar e combater essa ilusão de foco.
Como Quebrar a Ilusão de Foco e Cultivar a Felicidade Duradoura
A melhor maneira de romper essa ilusão de foco é tendo clareza de que você está sendo iludido.
A ilusão de foco é muito difícil de ser quebrada porque, na maior parte das vezes, nós não percebemos que estamos sendo iludidos por nós mesmos.
Nosso cérebro é muito bom em nos pregar peças e nos fazer pensar em algo como importante, como se a nossa felicidade dependesse daquilo.
Nosso cérebro tem duas maneiras de pensar: o modo rápido e o modo devagar.
O modo rápido é muito automático, inconsciente, dirigido por emoções e associações. Na maior parte do tempo, usamos o modo rápido de pensar para tomar decisões e avaliar nossa vida.
Mas para quebrar a ilusão de foco, é necessário usar o modo devagar.
Quando você acredita na ilusão de que entrar em forma, ganhar dinheiro ou comprar aquele carro vai te deixar mais feliz, você está usando o modo rápido de pensar, deixando as emoções e associações fazerem você entender que aquilo realmente é importante.
Mas, na verdade, aquilo só é importante porque você está pensando naquilo, você está focando nele.
Nós, seres humanos, gostamos de pensar que somos criaturas racionais, inteligentes e analíticas.
Mas a verdade é que 90% do tempo nosso cérebro opera no modo automático, no piloto automático, poupando energia e tomando decisões muito mais baseadas em emoções do que na razão.
A melhor maneira de quebrar a ilusão de foco é interrompendo esse modo de pensar rápido, para que você tenha clareza de que está se autoiludindo.
Isso é feito ativando o modo devagar de pensar: o modo lento, sequencial, baseado em regras, que utiliza cálculos conscientes para tomar decisões.
Coloque a Razão em Ação
Ao se flagrar muito apegado a um objetivo, percebendo que está depositando toda a sua felicidade na dependência de um evento externo, faça uma pausa para refletir.
Tente deixar de lado as emoções, use o modo devagar e, com a mente mais racional, procure entender por que você quer aquilo que está buscando.
Tente entender as razões por trás dos seus atos. Procure compreender por que você acha que conquistar isso ou aquilo vai afetar sua felicidade no longo prazo.
Ou, simplesmente, tenha a consciência de todo o esforço que você precisa fazer apenas para ter uma satisfação momentânea que logo passa.
Com atenção plena, usando a razão, você vai conseguir enxergar além da superfície e perceber que a importância de qualquer coisa é apenas a importância que você mesmo dá para ela.
A ilusão de foco pode atrapalhar muito sua busca pela felicidade. Mesmo que você conquiste o que acredita ser importante, logo seu cérebro vai se adaptar a essa nova situação e seus níveis de felicidade voltarão ao que eram antes.
Esses níveis de felicidade padrão, a base, são determinados em parte pela genética e também em parte pelas suas atitudes e sua forma de pensar.
Existem técnicas que você pode adotar para elevar seus níveis padrões de felicidade. Para aprofundar-se nesse tema e descobrir estratégias comprovadas pela psicologia positiva para elevar seu bem-estar, explore mais sobre o tema da felicidade e autoconhecimento.


