A Raiz do Sofrimento e o Caminho para a Verdadeira Autoaceitação
Bem-vindo a uma reflexão profunda sobre a origem do sofrimento e como podemos libertar-nos dele.
É crucial entender a diferença entre dor e sofrimento, pois, embora muitas vezes os confundamos, são conceitos distintos.
A dor é uma parte inevitável da vida; ela surge de eventos que nem sempre podemos controlar – acidentes, perdas, doenças. A dor faz parte da experiência humana.
No entanto, o sofrimento… ah, o sofrimento é diferente.
Ele está, em grande parte, sob nosso controle.
O sofrimento é uma decisão, geralmente inconsciente, que tomamos ao nos apegarmos à dor e às narrativas que construímos sobre ela.
Mas por que fazemos isso? Por que perpetuamos o sofrimento? Vamos mergulhar nas raízes dessa condição e descobrir como podemos nos ajudar.
A Semente do “Não Sou Suficiente”: Uma Jornada à Infância
Para compreender a origem do sofrimento, precisamos recuar no tempo, até a infância.
Observe uma criança pequena – um menino de um, dois ou três anos. Ele é a expressão mais pura de seu verdadeiro eu.
Se um bebê de seis meses, ao balançar a perna, derruba seu café da mesa, você não gritará com ele; ele não tem consciência plena de seus atos.
O mesmo vale para uma criança de um ano que está aprendendo a andar.
Mas há um ponto em que essa dinâmica muda.
A mesma situação, ou algo similar, pode acontecer com um menino de três ou quatro anos, e o pai pode repreendê-lo, talvez com a ideia de que “ele já deveria saber melhor”.
Ou, se uma criança está muito barulhenta em um restaurante, os pais podem silenciá-la, repreendendo-a de alguma forma.
Se ele está correndo e fazendo barulho em público, expressando sua versão mais autêntica e vibrante, pode ser mandado parar e ficar quieto.
Estudos mostram que uma criança média é repreendida oito vezes mais do que é elogiada.
Isso significa que, na maioria das vezes, a criança internaliza a mensagem “Eu não sou o suficiente” oito vezes mais do que a crença de que “Eu sou o suficiente”.
E o problema é a percepção da criança: quando ele é repreendido, ele sente uma retração do amor de seus pais.
Para reconquistar esse amor, a criança, subconscientemente, começa a pensar: “Preciso mudar quem eu sou para não ser repreendido e, assim, garantir o amor de meus pais”.
E é isso que fazemos. Nós nos adaptamos. Deixamos de ser tão barulhentos, tão “rebeldes”, e nos transformamos naquilo que achamos que precisamos ser para nos encaixar.
Assim, em algum momento de nossas vidas, todos nós abandonamos nosso verdadeiro eu para nos conformar.
Primeiro, aprendemos (ou percebemos) que nosso eu autêntico não se encaixa com nossos pais – mesmo que eles sejam amorosos, mas pais “médios” que repreendem mais do que elogiam.
Às vezes, é necessário repreender uma criança – eles podem querer pular de um muro e se machucar.
Mas a criança interpreta isso como “Não sou inteligente o suficiente”, “Não sou bom o suficiente”, “Meus pais estão retirando o amor”.
Tudo isso é subconsciente.
À medida que crescemos, essa percepção se amplia: nosso eu verdadeiro, pensamos, não se encaixa na sociedade.
E então, nos moldamos, nos transformamos no que acreditamos que precisamos ser para nos encaixar.
A Busca por Ser Outro: As Duas Armadilhas da Identidade
O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard observou como a maioria das pessoas se torna alguém que não é.
Chegamos a um ponto em que, inconscientemente, pensamos: “Eu desejo ser alguém diferente de quem eu sou”.
Desde a infância, nós nos modificamos para nos encaixar: primeiro com os pais, depois com outras crianças.
Na adolescência, buscamos fazer parte de um grupo, agir e ser como eles.
Na vida adulta, podemos seguir uma carreira que nossos pais nos disseram para seguir, ou o que pensamos que a sociedade espera de nós, ou algo que nos dê dinheiro para “manter as aparências”.
Tudo isso é uma disfarçada tentativa de se encaixar, e se encaixar, em essência, significa abandonar nosso eu verdadeiro, não ser quem realmente somos, mas sim o que pensamos que precisamos ser.
Essa é a razão pela qual tantos se tornam “agradadores de pessoas” – abandonam seu eu autêntico para agradar o outro.
Quando você decide – geralmente de forma subconsciente na infância, e às vezes conscientemente na idade adulta – “Eu quero ser diferente do que sou”, uma de duas coisas acontece:
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Você Tenta e Falha: Tentamos nos tornar outra pessoa, nos esforçamos incessantemente, mas falhamos.
Percebemos que não podemos nos tornar alguém diferente; continuamos sendo quem sempre fomos. E então, nos desprezamos por isso.
“Por que não consigo mudar? Por que não consigo ser outra pessoa?” Nos irritamos por falhar, por não sermos quem queremos ser.
Desejamos ser mais isso ou menos aquilo, parecer mais assim ou assado. A base desse pensamento é sempre: “Não quero ser quem sou.”
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Você Consegue e Se Perde: A outra rota é ter “sucesso” em se tornar outra pessoa, abandonando completamente o verdadeiro eu.
Nos perdemos em um personagem que precisamos interpretar. É como um ator que se entrega tanto a um papel que se esquece de quem ele realmente é – como o famoso caso de Jim Carrey ao interpretar Andy Kaufman, onde ele se perdeu tanto no personagem que, meses depois, não se lembrava de quem era.
Ele percebeu que Jim Carrey era apenas um personagem que ele interpretava, não seu verdadeiro eu.
Em ambos os casos, a fundação é a mesma: “Não quero ser quem sou.”
De qualquer forma, perdemos nosso eu verdadeiro, nos desconectamos de quem realmente somos.
Aquele menino que havia em mim, que aos dois ou três anos pegava flores ou pedras para sua mãe, desconecta-se.
Perdemos essa versão de nós mesmos, nossa versão mais autêntica.
O Preço da Desconexão e a Chave para a Paz Interior
Desconectar-se de quem você realmente é jamais trará felicidade ou verdadeira paz.
Resistir ao seu verdadeiro eu é a causa de tanta turbulência interna.
Nós nos afastamos tanto de quem somos que, muitas vezes, não sabemos mais quem somos.
É um despertar abrupto, uma “crise de meia-idade” onde percebemos que a vida que construímos não é a que realmente queremos, mas sim a que sentimos que devíamos construir.
Talvez você tenha se convencido de que precisa ser “forte” porque o mundo é cruel, e ele o derrubará.
Mas, no fundo, você é aquele ser suave e emocional que só quer amor.
Lembro-me de quando um mentor me levou para almoçar e me disse: “Mano, não sei como te dizer isso, mas muitas pessoas não gostam de você”.
Eu fiquei chocado. Eu achava que era o máximo, o melhor em minha área!
Ele explicou: “A pessoa que você apresenta não é quem você realmente é. Eu te conheço há anos, conheço seu verdadeiro eu, e você não é a mesma pessoa que se mostra.”
Comecei a perceber que eu apresentava uma pessoa brusca e agressiva.
Eu tentava “atacar primeiro” para que ninguém me atacasse, porque era fraco e tinha medo de ser vulnerável.
Eu mantinha as pessoas à distância para que não vissem meu verdadeiro eu, pois eu mesmo tinha medo dele.
No fundo, eu era apenas aquele menino que pegava flores para sua mãe, um ser suave e emocional.
A única maneira de encontrar a verdadeira paz é ser quem você realmente é.
Parar de resistir a todas as suas características e parar de tentar ser alguém que você não é.
Aceitar plenamente quem você é.
Perdemos-nos, e a única maneira de nos encontrarmos verdadeiramente é nos perdendo primeiro.
Se você se sente perdido, confuso sobre quem é, está na posição perfeita.
Você precisa se perder para se encontrar, para escapar do desespero, da ansiedade e da depressão que acompanham essa desconexão.
O filósofo Søren Kierkegaard afirmou que “o desespero desaparece quando paramos de negar quem realmente somos e tentamos descobrir e aceitar nosso verdadeiro eu”.
É uma jornada de autodescoberta contínua, uma exploração que dura uma vida inteira.
Para alguém que passou muitos anos “fora do caminho”, levará tempo para se reencontrar. É uma jornada sem destino final.
Abraçando Todas as Faces do Ser: O Poder da Aceitação Plena
Quando falo em aceitar quem você realmente é, não me refiro apenas aos seus “melhores” lados, mas a cada aspecto de você – o que chamamos de “bom” e o que chamamos de “ruim”.
A própria rotulação de “bom” e “ruim” é parte do problema, pois nos faz resistir a certas partes de nós mesmos.
Não há um lado “bom” e um lado “mau”; existe o organismo completo que você é.
Sim, há lados seus que são maravilhosos: doces, amorosos, agradáveis de estar por perto, gentis. Você deve aceitar esses lados.
Mas se você vai aceitar esses lados, precisa também aceitar aqueles que são… um pouco imperfeitos às vezes.
Todos nós somos um pouco egoístas, somos julgadores, somos arrogantes de certa forma.
Todos podemos ser bruscos e rudes, pensando em nós mesmos.
Existem partes excelentes em você, e existem partes que podem ser consideradas “complicadas”.
O caminho é aceitar as partes “boas”, mas, mais do que tudo, aceitar as outras partes de você.
A falta de aceitação delas é o que causa a resistência interna.
Ver seu lado egoísta e pensar “Não quero ser isso” só cria mais resistência.
Mas quando você vê seu lado egoísta e diz: “Sim, existe um lado egoísta em mim, e está tudo bem, faz parte de ser humano.”
Há um lado julgador em mim, e está tudo bem, faz parte de ser humano.
Há uma arrogância em mim, e está tudo bem, faz parte de ser humano.
É como uma sinfonia, com diversos aspectos de nosso ser.
O lado egoísta não precisa fazer um solo o dia todo; ele pode surgir às vezes e desaparecer em outras.
Às vezes, há benefício em ser egoísta, outras vezes não.
Às vezes, há benefício em ser julgador, outras vezes não.
Trata-se de aceitar cada aspecto de nós mesmos.
No fundo, a raiz de todos os problemas é “Não quero ser quem eu sou”.
Se essa é a causa, qual é a mentalidade que resolveria tudo? “Eu me amo como sou.”
O amor e a aceitação que você busca das outras pessoas e do mundo, na verdade, é o amor e a aceitação que você busca de si mesmo.
Ame cada parte de você, o “incrível” e o “imperfeito”.
Sei o que muitos podem pensar: “Se eu me aceitar, perderei a motivação? Ficarei preguiçoso? Vou apenas sentar em puro êxtase e minha vida não renderá nada?”
Não, você não perderá a motivação.
A ideia de que precisamos nos odiar ou odiar quem somos para sermos motivados não faz sentido.
A motivação não muda, mas a vida se torna muito mais fácil.
Você não sentirá como se carregasse uma mochila pesada o dia todo.
Quando você decide amar e aceitar a si mesmo, cada aspecto de você, isso não o torna menos motivado, mas torna a jornada pela vida muito mais fluida.
Em vez de sentir que a vida e o sucesso são como empurrar uma pedra morro acima, é como pular em um rio e deixar a correnteza levá-lo.
É um alinhamento total, colhendo as coisas boas da vida que passam por você no rio.
A vida se torna mais fácil, mais sem esforço, porque não há mais aquela resistência interna de lutar contra quem somos a todo momento.
A Verdade Inata: Você Já É Perfeito
Muitas vezes, pensamos que alcançar o sucesso nos fará sentir melhor.
Eu garanto que não. Há muitas pessoas bem-sucedidas que, tragicamente, tiram a própria vida porque o sucesso não as fez sentir melhor consigo mesmas.
Nada muda com a quantidade de dinheiro em sua conta bancária.
Dinheiro é apenas uma coisa, assim como uma camisa que você veste. Não define quem você é.
Comprar uma casa luxuosa ou um carro caro, ter milhões na conta – nada disso muda o que você sente internamente.
Nada que você faça ou conquiste pode torná-lo mais ou menos do que você já é.
Você é mais humano se ganhar um milhão de reais em um ano? Não.
Ganhar um milhão de reais não o torna mais ou menos humano; é apenas um fato. Você é mais humano quando compra uma casa? Não.
Há uma meditação guiada de um mestre que costumo citar, onde ele diz: “Você não tem bolsos, você não tem armazém”.
O que ele quer dizer é que você é um ser humano nu, sem nada em você.
Você veio a este mundo nu, e o deixará nu, sem poder levar nada consigo.
Não há bolsos para levar bens para a vida após a morte, nem armazém.
Isso significa que nada pode ser adicionado ou subtraído de você.
Tal como você é agora, você já é perfeito.
A única coisa que falta é a sua aceitação de si mesmo.
A aceitação de si mesmo, em todos os seus aspectos, sem importar o que.
Reflita sobre isso. Deixe essa ideia permear sua mente.
Espero que este texto o ajude a iniciar ou aprofundar sua jornada de autodescoberta.
Aceitar quem você realmente é, em sua totalidade, é o caminho para a verdadeira paz e para uma vida vivida com menos esforço e mais propósito.


