O Príncipe de Maquiavel: A Verdade Inconveniente por Trás do Jogo do Poder
“O Príncipe”, de Maquiavel, é um daqueles livros que nos desafiam a pensar. Por muito tempo, existiu a percepção de que suas ideias, por serem tão pragmáticas e por vezes duras, não caberiam em discussões sobre como nos tornarmos indivíduos melhores.
Mas a realidade é que, para evoluir, precisamos entender como o mundo realmente funciona. Só assim poderemos tomar as melhores decisões.
É vital sermos “maus” o suficiente para entender como as crueldades são feitas, mas “bons” o suficiente para não as praticar.
Há uma enorme distância entre como as pessoas agem e como deveriam agir. Aquele que ignora o mundo real para viver em um universo imaginário encontrará a ruína antes da salvação.
O que Maquiavel nos ensina é claro: existem todas as visões utópicas de como deveríamos ser e agir, mas a verdade é que a realidade é bem diferente. Em outras palavras, é preciso viver no mundo real.
A Lógica das Aparências e o Poder da Realidade
Pense por um momento: se perguntarem a você, qual tipo de conteúdo prefere consumir? Aquele que é apenas entretenimento, engraçado ou talvez apelativo, ou aquele que educa e traz conhecimento?
A maioria diria que prefere o conhecimento. No entanto, por que as propagandas mais caras são exibidas durante novelas, grandes eventos esportivos e programas de entretenimento, e não em programas educacionais?
A mesma lógica se aplica à política e a qualquer campo que envolva poder. Ninguém consegue ser um político “bom e honesto” aos olhos da população por muito tempo. Isso é como querer veicular propaganda caríssima em canais educacionais.
Você não investe rios de dinheiro ali. O que vende, o que capta votos, é a promessa fácil, a solução imediata.
Você não vota no político que investe em prevenção e educação a longo prazo; você vota naquele que promete gastar fortunas com tratamento depois que as pessoas já estão doentes.
Maquiavel sabia disso: “O príncipe que deseja manter sua autoridade deve aprender a não ser bom e usar este conhecimento ou abster-se de usá-lo, segundo a necessidade.”
Se você discorda, suba em um palanque e seja honesto. Diga: “Poderíamos gastar valores mínimos na saúde se todos praticassem a prevenção com exercícios físicos, alimentação balanceada e exames regulares.
A longo prazo, as pessoas ficariam menos doentes, e todos veriam os resultados surpreendentes desta política.”
Agora, responda: alguém que disse isso foi eleito e permaneceu no poder até os resultados aparecerem? Certamente não.
Você será eleito se subir no palanque e disser que vai aumentar os gastos com saúde, que você pode continuar comendo o que quiser e sendo sedentário, porque, quando precisar (e você vai precisar), todo o dinheiro será investido em sua saúde.
Incrivelmente, fazendo isso, você conseguirá infinitamente mais votos.
A Estratégia das Máscaras
Maquiavel também ensinou que um governante “precisa, de um lado, parecer efetivamente piedoso, fiel, humanitário, íntegro e religioso; de outro, ter ânimo de agir de maneira oposta quando as circunstâncias assim o mandarem”.
Observe as grandes empresas que você admira e que parecem tomar atitudes benevolentes. Quase todas possuem um departamento jurídico forte e implacável, que não hesita em esmagar qualquer concorrência que ameace seu terreno. Uma simples busca online revela inúmeros exemplos.
O mais intrigante, porém, é ver políticos que, notoriamente, não se importam com a religião, usá-la em suas campanhas.
Frases como “Sem Deus à nossa frente, esta campanha não seria possível” ou “Com a graça de Deus ao lado, vamos vencer” sempre funcionam.
A política pode até aspirar a ser laica, mas a população, em sua maioria, não é.
O Apelo do Caminho Mais Fácil
De todas as ações e virtudes de um príncipe, “nada confere maior prestígio do que realizar grandes obras e servir ele próprio como raro modelo para seu povo”. E as pessoas, em geral, sempre buscarão o caminho que parece ser o mais fácil.
Todos sabem que para ter um corpo saudável, é preciso boa alimentação, exercícios e sono de qualidade. Mas isso não “vende”.
O que vende é a ideia de que você pode ter o corpo que quer em 21 dias, que ficará escultural até o verão.
Da mesma forma, votamos no político que promete acabar com a fome ou a violência, mas não naquele que diz que precisamos mudar o sistema em que vivemos, com todas as consequências que isso trará, para que só então tenhamos a chance de resolver esses problemas.
Para que a verdade se revele, é fundamental analisar as propostas friamente, sempre questionando: como, quando e porquê?
Manipuladores não conseguem responder a essas perguntas. Por isso, nunca se deixe enganar pelo rótulo colorido que as pessoas colocam em seus “produtos”.
Essas são algumas das grandes ideias encontradas em “O Príncipe” de Maquiavel. Lembre-se: o conhecimento não é bom ou ruim; isso depende do que você vai fazer com ele.
Acredito que essas ideias podem nos dar muito poder. No entanto, viver uma vida utilizando esses princípios exigiria um preço grande demais, um preço que muitos buscam, mas que nem todos estão dispostos a pagar.
Mas também não podemos continuar sendo marionetes nas mãos de poderosos inescrupulosos, como a maioria das pessoas se encontra neste momento.
Por isso, reafirmo: seja “mau” o bastante para saber fazer crueldades, mas “bom” o bastante para não usá-las.
Só assim você será um ser com uma consciência expandida e, ainda assim, blindado contra as crueldades que persistem e nos cercam.


