A Ciência do Comportamento Desonesto: O Que a Verdade Inconveniente Revela

Tempo de leitura: 9 min

Escrito por Tiago Mattos
em julho 22, 2025

A Ciência do Comportamento Desonesto: O Que a Verdade Inconveniente Revela

A Verdade Inconveniente Sobre a Desonestidade: O Que a Ciência Revela Sobre Nosso Comportamento

É frustrante. Em meio aos desafios que o Brasil enfrenta, como a violência, a falta de segurança, a precariedade da saúde e a ausência de uma educação decente para todos, a corrupção se destaca como um dos problemas mais discutidos e preocupantes.

Por muito tempo, ao conversar com amigos sobre este assunto, eu já tinha uma opinião formada, acreditando que a solução passava por dois caminhos claros: primeiro, aumentar a probabilidade dos corruptos serem pegos, o que significaria mais policiais e câmeras de vigilância; e segundo, aumentar o rigor das punições, com sentenças de prisão e multas muito maiores.

Parece uma ótima ideia, não é?

Mas então, comecei a questionar: e se essa abordagem for incompleta, imprecisa, talvez até ineficaz? Mergulhando fundo nessa reflexão e em diversas pesquisas, deparei-me com um dos estudos mais esclarecedores que já explorei.

Nele, aprofundei-me na mais pura verdade sobre a desonestidade humana, e é sobre isso que vamos explorar hoje.

Para entender como a desonestidade funciona, pesquisadores desenvolveram um teste de matemática. Os participantes ganhariam dinheiro por cada resposta correta. Eles recebiam uma folha com o teste e, ao final do tempo, deveriam contar a quantidade de questões que haviam resolvido e informar o resultado.

Até aí, tudo simples, certo?

Agora, imagine outra configuração, chamada de “condição triturador”. Os testes são entregues da mesma forma, mas, depois de terminar e contar suas questões, você é guiado para triturar seu teste antes de informar quantos acertos teve.

O Desafio: Se você fosse um participante da condição triturador, o que faria? Trapacearia?

A Primeira Revelação: A Tentação é Grande

O que realmente aconteceu no experimento? Ao comparar os resultados das duas condições, os pesquisadores puderam identificar quem respondia corretamente e quem falsificava a pontuação para ganhar um dinheiro extra.

Como era de se esperar, a maioria das pessoas que teve a oportunidade, sim, falsificou a pontuação.

No entanto, o mais surpreendente é que, embora houvesse alguns que afirmavam ter feito todas as questões para maximizar os ganhos, a grande maioria trapaceava pouco, em média, apenas 10% a mais do que o real.

Aprendizado #1: Diante da Oportunidade, a Maioria Cede à Trapaça

Isso nos mostra uma verdade incômoda: quando surge a oportunidade, a desonestidade é uma inclinação comum no comportamento humano.

A Segunda Revelação: Recompensas Maiores Não Significam Mais Trapaça

Continuando com os experimentos, os pesquisadores decidiram aumentar ainda mais a recompensa para quem fizesse mais questões. O que você imagina que aconteceu?

Por incrível que pareça, com o aumento das recompensas, a quantidade de trapaças foi até um pouco menor! Isso vai contra a nossa lógica de que “quanto maior a recompensa, maior a trapaça”.

Outro teste surpreendente foi quando o dinheiro foi colocado em um pote, e os próprios participantes podiam pegar seu pagamento. A trapaça aumentou? Também não!

Essas experiências levaram os pesquisadores a propor um segundo ensinamento fundamental sobre a base da desonestidade.

Aprendizado #2: A Trapaça Tem Limites – A Integridade Pessoal Age Como Freio

As pessoas trapaceiam até o ponto em que ainda se sentem bem com seu senso de integridade. Existe um limite invisível onde a consciência impede o excesso de desonestidade.

A Terceira Revelação: O Dinheiro ‘Indireto’ Abre Precedentes

Será que tendemos a trapacear mais quando há dinheiro diretamente envolvido, ou quando há uma troca de valor ou presente?

Os pesquisadores substituíram o dinheiro direto por vales que poderiam ser trocados por dinheiro um pouco depois do experimento. O que você acha que aconteceu dessa vez? O número de trapaças aumentou, diminuiu ou permaneceu o mesmo?

Descobriu-se que, dessa vez, a quantidade de trapaças aumentou muito! Talvez seja por isso que muitas pessoas não pegariam R$5 que estivessem ao lado de uma impressora no trabalho, mas essas mesmas pessoas imprimem aos montes trabalhos escolares e outras coisas não relacionadas ao trabalho – o que, convenhamos, tem o mesmo valor financeiro.

Aprendizado #3: A Desonestidade Aumenta Quando Há Um “Buffer” Com o Dinheiro

Quando o dinheiro não está diretamente envolvido, ou quando há uma intermediação (como vales ou benefícios indiretos), a tendência à trapaça se intensifica. A distância do dinheiro físico parece aliviar a culpa.

A Quarta Revelação: O Poder dos Lembretes Morais

Vamos a mais uma mudança no experimento. Desta vez, foi idêntico à condição triturador, mas com uma diferença crucial: antes do teste, os participantes eram incentivados a refletir sobre os Dez Mandamentos bíblicos.

Houve uma breve discussão sobre eles e, logo após, o experimento. O que aconteceu?

O resultado foi impressionante: não houve trapaça alguma, apesar de ninguém ter conseguido se lembrar de todos os dez mandamentos.

Aprendizado #4: Lembretes Morais Fortalecem a Conduta Ética

Lembrar padrões morais melhora o comportamento moral, pelo menos por um curto período. Isso sugere que a consciência ética pode ser ativada e reforçada para combater a corrupção e a desonestidade.

A Quinta Revelação: O Esgotamento Mental É Inimigo da Integridade

Para facilitar nosso entendimento, o experimento foi alterado novamente. Tiraram os Dez Mandamentos e colocaram outra tarefa: escrever um pequeno texto sobre o que haviam feito no dia anterior, mas com uma dificuldade enorme – não podiam usar as letras “a” e “n”.

Imagine o quanto é difícil isso! Você não poderia escrever, por exemplo, “fui passear no parque” ou “nos encontramos no restaurante”.

Esse pequeno obstáculo foi colocado para que o nível de estresse aumentasse e gerasse um maior esgotamento mental. E depois disso, lógico, refizeram o teste. Qual foi o resultado? As trapaças aumentaram!

Isso acontece pelo mesmo motivo que pessoas voltam a fumar depois de uma crise, ou que, quando estamos estressados e cansados após um dia inteiro trabalhando, pensamos somente em comer doces ou pizzas em vez de algo saudável.

Aprendizado #5: Mente Cansada, Decisões Ruins

Tendemos a nos esgotar mentalmente, e depois disso, acabamos tomando más atitudes. Ou seja, deixe as grandes escolhas da sua vida para quando estiver mais calmo e menos desgastado, garantindo uma melhor integridade em suas decisões.

A Sexta Revelação: Produtos Falsificados e a Deterioração da Ética Pessoal

Em outra situação, alguns participantes receberam óculos originais e caros, e outros receberam os mesmos óculos, mas foram informados de que eram falsificados.

Em seguida, foram chamados para uma sala para realizar outra tarefa enquanto ainda usavam os óculos, os famosos testes de matemática. O que foi constatado?

As pessoas usando os óculos originais não se saíram um pouco melhores do que na condição normal; já muitas das pessoas usando os óculos que disseram ser falsificados disseram ter feito mais exercícios (ou seja, trapacearam mais).

Isso, de forma preocupante, nos leva ao sexto ensinamento.

Aprendizado #6: Usar Algo Falso Torna a Integridade Mais Flexível

Quando conscientemente usamos um produto falsificado, torna-se mais fácil esquecer nossa integridade e acabamos avançando um pouco no caminho da desonestidade.

Parece que o ato de usar algo falso nos predispõe a uma moralidade mais “flexível”.

A Sétima e Última Revelação: A Contagiosa Natureza da Trapaça

Mesmo que você já esteja cansado, quero mostrar apenas mais um único experimento. Imagine que você é um dos participantes de nosso teste de matemática. Você está lá sentado e observa o instrutor passando as instruções para você e seus colegas. “Podem começar!”, ele anuncia.

Você mergulha nos problemas, tentando resolver o máximo possível. Cerca de 60 segundos se passam, e você ainda está na primeira questão.

De repente, do fundo da sala, você ouve um “Terminei!” vindo de um sujeito alto, magro e de cabelos loiros. Ele se levanta e se dirige ao instrutor, perguntando: “O que devo fazer agora?”.

“Impossível!”, você pensa. “Não consegui resolver nem a primeira questão!”. Você e todos os demais olham para ele incrédulos. Obviamente, ele trapaceou; ninguém conseguiria completar todos os exercícios em menos de 60 segundos.

“Vá triturar sua planilha”, orienta o instrutor. O homem caminha para o fundo da sala, tritura a planilha e, em seguida, diz: “Resolvi tudo! Assim eu ficarei com o dinheiro máximo!”. “Ok, pode ir embora”, diz o pesquisador, entregando o dinheiro a ele.

O aluno agradece, se despede de todos e sai da sala sorrindo, com o valor cheio no bolso.

Ao observar esse episódio, como você reagiria? Ficaria indignado com o fato de o homem ter trapaceado e ido embora? Isso alteraria seu próprio comportamento moral, fazendo-o trapacear menos ou mais? E uma última pergunta: e se alguém de quem você não gostasse fizesse isso, alteraria suas ações de algum modo?

Os resultados mostraram que a trapaça é contagiosa. Quando o trapaceiro faz parte de nosso grupo social, nos identificamos com essa pessoa e, em consequência, sentimos que trapacear é mais socialmente aceitável.

No entanto, quando a pessoa trapaceando é alguém de fora do grupo, fica difícil justificar nosso mau comportamento, e tendemos a nos tornar ainda mais éticos, no desejo de nos distanciar dessa pessoa “imoral”.

De modo geral, esses resultados mostram como as outras pessoas são fundamentais na definição dos limites aceitáveis para nosso próprio comportamento, incluindo a trapaça.

Quando vemos nossos amigos agindo fora de um limite aceitável, é provável que ajustemos um pouco nossas definições morais. E se acontece de um membro do nosso grupo ser uma figura de autoridade – pais, chefes, professores, ou outra pessoa que respeitamos – as probabilidades de nos deixarmos influenciar são ainda maiores.

Aprendizado #7: Somos Seres Sociais e Nossas Ações Refletem Nosso Círculo

Somos profundamente influenciados por outras pessoas. Se tiver algum conhecido corrupto, o ideal é manter distância; a desonestidade pode ser contagiante e afetar sua própria integridade.

Conclusão: A Dança entre a Honestidade e o Benefício Próprio

Tendemos a culpar mais as pessoas que roubam excessivamente. Ao mesmo tempo, existem milhares e milhares de pessoas que trapaceiam apenas um pouquinho.

Porém, quando muita gente rouba só um pouquinho, milhares e milhares de reais são desviados, o que é muito mais do que é perdido com grandes parceiros agressivos. A corrupção no Brasil e no mundo também se manifesta nesses pequenos desvios.

Em resumo, nosso comportamento é conduzido basicamente por duas motivações opostas: por um lado, queremos nos ver como pessoas honestas e honradas; mas, por outro lado, queremos nos beneficiar o máximo possível – o famoso “jeitinho brasileiro”.

Claramente, essas duas motivações estão em conflito.

Como podemos nos beneficiar com a trapaça e, ao mesmo tempo, nos vermos como pessoas honestas e maravilhosas? É aqui que nossa fantástica flexibilidade cognitiva entra em ação.

Graças a essa habilidade humana, desde que trapaceemos somente um pouco, podemos nos beneficiar da desonestidade e ainda conseguir nos ver como seres humanos maravilhosos.

Uma última palavra: perceba essas atitudes em si mesmo e lute contra elas. Seja uma pessoa melhor.

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