Você já se viu naquela situação em que a resposta de uma pergunta está na ponta da língua, mas simplesmente não consegue puxá-la?
Seja em uma prova importante, tentando lembrar o nome de alguém que você acabou de conhecer, ou até mesmo uma senha crucial para um aplicativo, a sensação de saber algo, mas não conseguir acessar, é extremamente frustrante.
Esses “brancos” acontecem porque, muitas vezes, enfrentamos um problema no terceiro e último processo de formação de memórias: a recuperação.
Ao lado da codificação e do armazenamento, a recuperação é a etapa em que, de fato, você consegue relembrar uma informação guardada na sua memória de longo prazo.
Entendendo a Memória: Um Funil de Informações
Para entender a fundo como a recuperação funciona, é fundamental revisitar o funcionamento de nossa memória.
Nosso cérebro processa informações de forma similar a um funil.
Primeiramente, a memória sensorial registra tudo o que nossos cinco sentidos captam, mas essas informações ficam ali por apenas alguns poucos segundos.
Em seguida, a memória de curto prazo (ou memória de trabalho) seleciona alguns pedaços dessas informações – algo entre 5 a 9 unidades.
Por fim, apenas o que é considerado mais relevante chega à memória de longo prazo, onde as informações mais importantes podem ser retidas por dias, meses ou até anos.
Para que tudo isso aconteça, existem os três processos de formação de memórias:
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Codificação: É o ato de passar uma informação da sua memória de curto prazo para a memória de longo prazo.
Para isso, você pode usar técnicas como repetição mecânica, agrupamento, mnemônicos, autorreferência e espaçamento. Já exploramos essas técnicas em detalhes em conteúdos anteriores.
- Armazenamento: É a capacidade do cérebro de reter aquela informação até o momento em que você vai precisar dela. Este processo também já foi tema de nossos estudos prévios.
- Recuperação: O foco principal deste artigo. É o ato de relembrar a informação guardada na sua memória de longo prazo no momento exato em que você precisa dela – seja na hora de uma prova, ao se encontrar com aquela pessoa que você conheceu uma única vez em um evento, ou ao usar um aplicativo que pede uma senha que você criou.
Como o Cérebro “Puxa” a Informação: As Pistas de Recuperação
Seu cérebro usa algumas pistas para recuperar informações na memória de longo prazo. Sempre que você tenta se lembrar de algo, você está ativando o processo de recuperação.
E o que define se você vai conseguir ou não recuperar essa memória é o uso de pistas de recuperação, principalmente aquelas que você deixou na hora da codificação.
Para recuperar uma informação guardada em sua memória de longo prazo, você precisa associar uma dessas pistas de recuperação com as pistas que estavam presentes no momento em que você codificou aquela memória.
Por isso, a forma como você codifica uma memória é tão importante.
O Poder do Contexto e do Estado Emocional
Um exemplo de pista é o contexto em que você codificou a informação.
Pesquisadores realizaram um experimento para ver como o contexto do aprendizado influencia a hora em que o estudante precisa recuperar a informação. Nesse experimento, mergulhadores foram divididos em dois grupos: um grupo recebeu informações debaixo d’água, e outro grupo recebeu informações em terra firme.
Depois, os professores fizeram testes com esses alunos. Eles perceberam que os alunos que receberam informações debaixo d’água acertaram as respostas quando fizeram os testes também debaixo d’água.
E aqueles que receberam as informações em terra firme acertaram as respostas quando fizeram os testes também em terra firme.
Outro exemplo de pista de recuperação é o estado emocional. Se você está triste, é mais capaz de recuperar uma informação que aprendeu quando estava triste.
Se está ansioso, pode se lembrar mais facilmente de uma memória que adquiriu quando estava ansioso. E mesmo estando sob efeito de álcool, é mais fácil se lembrar de uma informação que você recebeu quando estava sob o mesmo efeito.
A regra é simples e fácil de entender: quando você codifica uma informação, seu cérebro cria uma memória associando algumas pistas àquele momento.
Na hora de recuperar a informação, seu cérebro buscará pistas que podem ser associadas ao momento em que você adquiriu aquela memória. Por isso, o processo de codificação é tão importante.
Se você codificou usando a técnica do agrupamento, na hora da recuperação, você precisa se lembrar dos grupos. Se usou um mnemônico, precisa se lembrar de qual é o mnemônico. Se usou autorreferência, precisa se lembrar da história criada.
Nossas Memórias são Reconstruções, Não Cópias Exatas
É crucial entender que nosso cérebro não funciona igual a um computador que resgata as memórias exatamente como foram gravadas.
Primeiro, porque nem todas as memórias que gravamos aqui no cérebro são acessíveis; algumas ficam em nosso subconsciente e não conseguimos acessá-las quando queremos.
Segundo, porque quando você consegue acessar uma dessas memórias e recuperar uma informação, a memória não vem exatamente do mesmo jeitinho que ela foi registrada.
Essa diferença entre o fato original e o que nos lembramos acontece porque o indivíduo que registrou a memória já não é o mesmo que está tentando recuperá-la. O contexto mudou, e a sua interpretação de alguns fatos também mudou.
Por isso, muitos psicólogos chegam a dizer que o processo de recuperação de memórias, na verdade, deveria se chamar reconstrução de memória.
Cada vez que você recupera uma memória, você está, na verdade, modificando um pouco aquilo que está lembrando. Essas pequenas mudanças dependem do seu estado emocional, do seu humor, das referências que você adquiriu ao longo do tempo.
Tudo aquilo que aconteceu entre o momento em que você codificou a memória e o momento em que você tenta se lembrar dela influencia a maneira como você vai depois recuperar a informação.
Isso acontece mesmo com memórias de grande impacto emocional, como o nascimento de um filho ou a morte de um parente.
Mesmo que você acredite que lembra exatamente de todos os fatos, ainda assim você está reconstruindo alguns detalhes. Nossa memória não é um filme gravado em nossa mente que reproduzimos as lembranças exatamente como aconteceram; sempre existe uma reconstrução.
As Três Formas de Recuperar uma Informação
Quando você tenta recuperar alguma informação que está na sua memória, seu cérebro usa três métodos principais:
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Recuperação Livre: O primeiro e mais difícil método. É muito parecido com o exemplo do início da conversa: você está lá na prova e tenta de todas as maneiras se lembrar da resposta certa para aquela pergunta aberta e não consegue.
A recuperação livre é isso. É muito comum seu cérebro apenas lembrar de alguns pedacinhos da informação, e geralmente é mais fácil se lembrar daquilo que você aprendeu primeiro ou daquilo que você aprendeu por último.
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Recuperação com Pistas: Neste método, seu cérebro recebe uma ajuda. Por exemplo, digamos que em uma prova a pergunta para você seja: “Qual foi o primeiro planeta?” e a resposta já vem indicada com a letra ‘M’.
Agora você só tem que completar o espaço com o restante do nome do planeta. A letra ‘M’ é uma pista para você; é mais provável que você se lembre de Mercúrio ou Marte. O trabalho do seu cérebro é recuperar a informação, e isso já ficará bem mais fácil.
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Reconhecimento: Neste método, seu cérebro apenas precisa olhar e reconhecer qual é a resposta correta. Por isso, o reconhecimento é um método de comparação.
Por exemplo, a prova que você já tem as respostas apresentadas para você como alternativas (múltipla escolha). Você apenas acerta se assinalar qual é a resposta certa. Seu trabalho é apenas comparar as opções e reconhecer qual é a informação correta entre as várias alternativas apresentadas.
Alguns especialistas apontam que haveria um quarto método, chamado reaprendizagem. Mas a reaprendizagem não é exatamente uma recuperação de memória.
Por exemplo, imagine que você aprendeu a tocar piano quando era criança e depois nunca mais tocou. Muitas décadas depois, você decide tocar, mas esqueceu o que sabia. Então você tem que reaprender aquele instrumento.
Em teoria, a reaprendizagem seria um pouco mais fácil do que tentar aprender a tocar piano pela primeira vez. No entanto, para fins de recuperação ativa, focamos nos três métodos principais.
A Chave Para a Memória Eficiente
Para ter sucesso na recuperação de informações sempre que precisar, o grande segredo é ter usado uma boa técnica na hora de você codificar a memória.
A recuperação é o processo chave quando o assunto é memória. Se você não consegue se lembrar de algo na hora que precisa, então de nada adianta entender como a memória funciona.
Para que você tenha uma boa recuperação de memórias, você precisa seguir as pistas que foram deixadas durante o processo de codificação dessas memórias.
Existem técnicas para você fazer tudo isso e aprimorar cada etapa da formação e acesso às suas informações.


