Tsundoku: O Hábito Oculto de Quem Ama Livros (e a Culpa que Ele Traz)
Você é um entusiasta da leitura? Compra livros com entusiasmo, sonhando com as histórias e o conhecimento que eles podem oferecer?
Mas, com o tempo, percebe que sua estante está cada vez mais cheia de títulos intocados, acumulando-se como um monte de promessas não cumpridas?
Se a resposta é sim, talvez você esteja praticando o Tsundoku.
O Que É Tsundoku?
Tsundoku é uma palavra de origem japonesa que descreve o comportamento de adquirir materiais de leitura – especialmente livros – e deixá-los empilhados em casa sem lê-los.
É uma mistura de “tsunde-oku” (empilhar coisas para mais tarde) e “dokusho” (ler livros).
É importante diferenciar o Tsundoku da bibliofilia e da bibliomania:
- Bibliofilia é o amor genuíno pelos livros. Um bibliófilo sente prazer em estar rodeado por eles, admirá-los e colecioná-los, mesmo que não tenha lido todos. A paixão está na posse e na apreciação estética e intelectual da obra.
- Bibliomania é a versão patológica da paixão por livros. É uma obsessão doentia por adquirir mais e mais volumes, a ponto de prejudicar a qualidade de vida do indivíduo, seja financeiramente ou pela desorganização extrema.
Tanto na bibliofilia quanto na bibliomania, existe uma intenção clara de criar uma coleção.
No entanto, quem pratica o Tsundoku tem sentimentos conflitantes.
Por um lado, há uma sincera intenção de ler os livros que compra. Por outro, por não ter um sistema de leitura eficiente, ele acaba não lendo tudo o que adquire.
O Preço Emocional do Acúmulo de Livros Não Lidos
Essa pilha de livros não lidos começa a causar sentimentos de culpa, frustração, angústia e ansiedade.
Esses sentimentos negativos também surgem quando o indivíduo sente vontade de comprar livros novos, mas é confrontado com a realidade de tudo o que ainda não foi lido em sua estante.
A estante de livros pode representar muito para um leitor. Dependendo das suas escolhas e hábitos, seus livros podem se tornar um verdadeiro símbolo de conhecimento adquirido e boas leituras realizadas.
Ou, infelizmente, podem se transformar em um símbolo de culpa e ansiedade por tudo o que ficou intocado.
Como você se sente quando não lê o que comprou? É crucial aprender a reconhecer e compreender suas próprias emoções, um componente vital da inteligência emocional.
Lembre-se das vezes em que você terminou a leitura de um bom livro. Geralmente, há uma emoção positiva de dever cumprido e a vontade de encontrar o próximo livro.
Mesmo que haja um sentimento de “que pena que acabou”, essa aparente chateação é, na verdade, um convite para ler mais.
Por outro lado, quando um indivíduo é um colecionador de livros não lidos, sofrendo com o Tsundoku, ele se sente sobrecarregado.
A sensação é de que nunca conseguirá dar conta de tudo aquilo. Cuidado para não se autossabotar, sentindo-se incompetente ou culpado por não ler o que comprou.
Como Superar o Tsundoku
Se você percebeu que se tornou um acumulador de livros não lidos e isso está gerando emoções negativas, o que pode fazer?
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Reconheça o comportamento: O primeiro passo é admitir que esse hábito está prejudicando sua vida ou seu bem-estar.
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Tome a decisão de mudar: Decida conscientemente que quer uma nova abordagem para sua relação com os livros.
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Examine seu comportamento: Analise racionalmente suas compras. Qual era sua intenção ao comprar aquele livro? Se comprou com a sincera vontade de ler, mas ainda não o fez, e agora já quer outro, o que aconteceu? Será que seus planos são irrealistas ou você compra por impulso emocional?
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Crie uma estratégia realista de leitura: Preste atenção aos sinais. Se você não está feliz com seu comportamento, é hora de usar um sistema mais inteligente.
Se, ao olhar para seus livros não lidos, você sente emoções negativas – como o desejo de comprar novos versus a culpa pelo que já possui – é um sinal claro de que precisa mudar.
A Mentalidade por Trás do Tsundoku: O “Fetiche” com Livros
Muitas vezes, o comportamento do Tsundoku – comprar livros e deixá-los intocados na estante como decoração – vem da ideia de que o livro é um “enfeite precioso” ou um “fetiche” que precisa ser reverenciado e preservado imaculado, ou seja, sem ser tocado ou manuseado.
Será que você trata seus livros com cuidado excessivo, manuseando-os para não danificar as páginas, apenas os colocando na estante bem organizada, talvez por cor da capa?
Ou será que o verdadeiro valor dos livros reside em seu conteúdo?
Livros não são feitos apenas para decorar estantes. Não é inteligente ter um fetiche que o impeça de manusear o próprio livro porque você quer mantê-lo imaculado.
Tratar livros como objetos frágeis, que precisam ser preservados contra o próprio uso, é um equívoco.
Pelo contrário, o uso dos livros é justamente o manuseio na leitura – e uma leitura ativa é feita virando páginas, sublinhando, fazendo anotações.
A ideia do livro como um objeto intocável ficou para trás. Um livro manuseado que fornece informação é muito melhor do que um livro intocado.
Essa ideia do livro como um objeto sagrado tem suas raízes na história.
Documentos escritos existem há mais de 5 mil anos, mas os livros só se popularizaram há cerca de 200 anos – um período relativamente curto na história da humanidade.
Os primeiros documentos eram escritos por profissionais dedicados; saber escrever era para poucos, e o acesso ao material necessário (tinta, pena, papiro) era muito raro.
Por isso, por milhares de anos, o acesso à escrita e à leitura foi restrito, geralmente a textos oficiais ou religiosos.
Até a Idade Média, os livros eram praticamente exclusivos dos religiosos, e monges copistas reproduziam livros à mão. Conhecimento era poder.
Mesmo após a invenção da prensa, que facilitou a reprodução, a escrita e a leitura continuaram sendo privilégios de quem tinha dinheiro e poder.
Somente no século XIX o acesso aos livros e à leitura começou a se popularizar lentamente.
O grande público não tinha “direito” de ficar tocando ou manuseando livros; eles eram restritos a uma minoria de privilegiados e vistos de longe, intocáveis.
É por isso que, ainda hoje, existe uma cultura forte de tratar os livros como algo sagrado.
Quando alguém diz que “gosta de sentir o cheiro de livro novo”, surge a pergunta: ele realmente busca o conhecimento útil que o livro oferece, ou apenas o “fetiche” do objeto intocado?
A mentalidade de manter o livro limpo, sem marcas ou anotações, impede que você extraia o máximo de valor dele.
Essa mentalidade precisa ser abandonada.
Livros: Ferramentas para o Conhecimento
Pare de tratar os livros como algo especial e comece a enxergá-los simplesmente como ferramentas, instrumentos para atingir algum objetivo prático.
Pense em um sapato: quando você o compra, ele é novo e imaculado, mas, conforme você o usa, ele se desgasta e fica sujo.
No entanto, o sapato desgastado é um objeto que foi usado e cumpriu seu objetivo.
Da mesma forma, um livro é um objeto que serve para você conseguir um objetivo: obter informação, entretenimento ou aprender algo.
Isso significa que você deve usá-los da forma mais eficiente possível para atingir esse objetivo.
Não tenha “pena” deles. Manuseie-os, faça anotações, sublinhe, dobre páginas se isso o ajudar a ler mais rápido ou a assimilar melhor.
Claro, isso não significa que você deve danificar os livros intencionalmente, assim como não danificaria seus sapatos de propósito.
O ponto é que o uso é o propósito.
Para o leitor, a pior coisa que existe é não ter interesse em livros e conhecimento.
A segunda pior coisa é apenas comprar o livro e não lê-lo.
Não adianta gastar dinheiro com livros se você não os lê de verdade – com atenção, compreendendo e aplicando o que pode ser aplicado em sua vida.
É claro que cada um faz o que bem entende com os próprios livros.
Não há nada de errado em comprar um belo livro de arte ou fotografia para que ele faça parte da sua decoração. Tudo bem!
O importante é ter clareza de que esse livro está sendo comprado como enfeite.
O problema surge quando você compra um livro que queria ler, depois compra outro antes de terminar o primeiro e começa a sofrer com a culpa pelo seu próprio comportamento de Tsundoku.
Encher sua estante, enganando-se com a impressão de que é um grande leitor quando no fundo sabe que não passa de um acumulador, gera um sentimento de culpa profundo.
É hora de usar técnicas de leitura inteligente para ler mais rápido e adquirir mais conhecimento. Além disso, é fundamental mudar sua mentalidade, deixando de enxergar os livros como objetos imaculados e passando a vê-los como instrumentos para atingir seus objetivos e se tornar mais inteligente.
Se você trata os livros como objetos preciosos que ficam intocados, está perdendo a oportunidade de extrair o máximo de conhecimento deles e, talvez, esteja praticando Tsundoku, acumulando livros não lidos com culpa.
Talvez seja hora de aprender a criar uma estratégia realista de leitura e se tornar um leitor de alto nível.
É hora de transformar sua relação com os livros, liberar seu potencial de leitura e absorver o máximo de conhecimento possível.


