Você Não Está Quebrado: Como o Trauma Pode Te Construir e a Perfeição Já Existe em Você
Você é perfeito do jeito que é, independentemente do que tenha acontecido em sua vida. Não há nada de errado com você. É verdade, mas você realmente acredita nisso?
Hoje, vamos explorar a ideia de que você é literalmente perfeito como é, não está “quebrado” de forma alguma. Nada que tenha acontecido está fundamentalmente errado com você. Na verdade, tudo o que viveu é absolutamente perfeito para o seu caminho.
Você pode ouvir isso e pensar: “Bem, muitas coisas ruins aconteceram comigo, ou coisas que eu não queria que acontecessem.”
No meu trabalho com autodesenvolvimento, essa é uma percepção muito comum.
O “Véu” do Autodesenvolvimento
Ao iniciar uma jornada de autodesenvolvimento, muitos de nós percebem uma enxurrada de áreas que parecem precisar de melhoria. É como se um véu fosse levantado, revelando coisas que antes não víamos.
E, sinceramente, a ignorância pode ser uma benção. Se eu fosse ignorante sobre a necessidade de me aprimorar, minha vida poderia parecer mais tranquila. Mas eu não teria a vida que realmente desejo.
A maioria das pessoas que buscam crescimento sabe que “melhorar” implica em “consertar” algo.
O Que Aconteceu com Você Não Te Quebra
Ao longo de meu trabalho com autodesenvolvimento, tenho ouvido as histórias mais dolorosas: abusos de todos os tipos (mentais, físicos, sexuais), assassinatos de pais ou familiares, tentativas de assassinato, suicídios próximos, e pessoas que tentaram o suicídio várias vezes.
Ver o que os indivíduos enfrentam gera uma compaixão imensa. Percebemos que, mesmo aqueles que parecem ter tudo sob controle, estão lidando com desafios internos.
Você nunca sabe o que realmente se passa na mente ou na vida de alguém, a menos que ele se abra completamente.
No entanto, é crucial entender que o trauma não precisa ser “massivo” para deixar uma cicatriz profunda. Muitas pessoas se sentem culpadas por suas vidas terem sido “boas” e, ainda assim, terem dificuldades.
É impossível viver sem algumas cicatrizes. Somos expostos a comparações constantes, desde a publicidade que nos diz que não somos bons o suficiente, até as redes sociais.
Talvez seu pai trabalhasse o tempo todo e nunca lhe desse o amor que você merecia, mesmo que estivesse fazendo o seu melhor para prover. Isso é uma forma de trauma.
Ou talvez sua mãe, ao tentar discipliná-lo, retirasse o afeto. Isso não é abuso físico, mas é uma forma de trauma, pois a criança não recebe o que mais precisa: amor, aceitação e segurança emocional dos pais.
Medo excessivo instilado pelos pais (mesmo com boas intenções), ou a negligência emocional – pais que não sabiam lidar com emoções e deixaram os filhos em um vácuo, sem suporte – são também formas de trauma.
Como o Dr. Gabor Maté, um renomado psicólogo que trabalhou com dependentes químicos, explica: trauma é trauma. Para o cérebro e o sistema nervoso, não há “trauma grande” ou “trauma pequeno”. É tudo trauma.
Em sua forma mais simples, trauma é não receber o que você precisa durante o seu desenvolvimento, seja dos pais, de professores, de bullies ou de relacionamentos.
A História da Incompletude
Um padrão comum em todas essas experiências é a sensação de estar “quebrado” ou de que “falta um pedaço”.
Lembro-me de conversar com um jovem após uma palestra. Ele havia sido agredido sexualmente na infância e, desde então, sentia que faltava um pedaço dele.
Eu o questionei: “Que parte está faltando? Onde está essa parte que falta?”. Ele não conseguia responder, o que o fez perceber que estava contando uma história a si mesmo, e essa história havia se tornado sua identidade.
Muitos se sentem indignos de amor, respeito, sucesso ou felicidade, porque, no fundo, sua identidade se tornou “algo está errado”, “não sou completo”.
Isso os impede de buscar o que realmente querem na vida.
Pense nos cães de três patas. Quando perdem uma pata, nada muda em sua percepção de si mesmos. Eles continuam sendo os cães mais felizes, correm, abanam o rabo, sentem a mesma alegria e amor.
Para nós, humanos, um evento traumático pode criar uma história disfuncional de que “há algo de errado”. Um homem que perde um braço ou a visão, por exemplo, pode sentir-se menos digno.
A questão é: a história que você conta a si mesmo é empoderadora ou desempoderadora?
Nosso cão, Toby, com 13 anos, está perdendo a visão, mas seu comportamento não mudou. Ele ainda abana o rabo, feliz.
Se fosse um humano, poderíamos nos sentir incompletos, com “algo faltando”. Como podemos viver como um cão de três patas ou como Toby, que, apesar de uma “deficiência”, não a vê como algo errado?
A Força da Sua Narrativa Pessoal
Você é perfeito do jeito que é, independentemente do que tenha acontecido, e não há nada de errado com você. Essa é a história que quero que você comece a contar a si mesmo.
É a verdade, mas você acredita nela? Quanto mais você repete uma história, mais você acredita nela.
Há uma frase infame que diz: “Se você contar uma mentira grande o suficiente e continuar repetindo-a, as pessoas acabarão por acreditar nela.”
Alguns de nós somos “ditadores” em nossa própria mente, repetindo a história de que “há algo de errado comigo”. Se você continuar dizendo isso, encontrará todas as “falhas”, porque ninguém é “perfeito” nesse sentido.
Mas se você começar a dizer “sou perfeito, não há nada de errado comigo”, começará a ver as áreas onde você é perfeito.
As coisas que aconteceram são apenas partes do seu passado. Você não está quebrado, incompleto, não é indigno de amor.
Não é que algo esteja faltando, mas sim que você não para de repetir a história de que algo está faltando.
O que você ouve em sua cabeça quando está sozinho? É a história que você quer contar?
Não permita que algo seja sua identidade se não for empoderador.
Se você disser a uma criança que há monstros debaixo da cama todos os dias, ela terá medo de ir para a cama e crescerá preocupada com ataques. Que “monstros” você tem criado ao contar a mesma história repetidamente?
Cinco Passos Para Superar e Construir Sua Nova Identidade
Resolver essa questão não é algo que acontece da noite para o dia. Se você tem contado a mesma história por anos, não vai mudar tudo amanhã. É um trabalho diário.
Aqui estão cinco passos para começar a superar isso:
- Fale com alguém:
- Comece a contar uma nova história:
- Aceite:
- Perdoe:
- Perceba que você não está quebrado:
Compartilhe o que está acontecendo em sua mente. A vergonha se alimenta do silêncio. Conversar com alguém que o ama e o aceita incondicionalmente é libertador.
Para mim, compartilhar minha história, incluindo a luta de meu pai com o alcoolismo, foi extremamente catártico. Há alguém em sua vida com quem você pode ser totalmente vulnerável?
Torne-se consciente da narrativa que você repete e comece a mudá-la. Quando notar a história antiga ressurgindo, pare-a e substitua-a por uma nova.
Qual afirmação você precisa repetir a si mesmo constantemente? Assim como uma música que gruda na cabeça, você pode escolher a “música” que define sua identidade.
Aceite o que aconteceu. Aceite quem você é e as experiências que teve. Como Peter Crone diz: “O que aconteceu, aconteceu e não poderia ter acontecido de outra forma, porque não aconteceu.”
A aceitação é o primeiro passo para a liberdade.
Embora seja difícil, perdoar a si mesmo e aos outros é fundamental para a sua paz.
Guardar ressentimento é como beber veneno e esperar que o outro morra; afeta apenas você. Deixe ir.
O trauma não o quebra, ele o constrói. O Dr. Gabor Maté, em seu documentário “A Sabedoria do Trauma”, fala sobre como o trauma é uma força que pode nos ajudar a nos tornarmos a pessoa que precisamos ser.
Em vez de pedir para ser mais forte, peça desafios que o tornem mais forte. O trauma é um desses desafios.
Você pode construir uma nova identidade a partir de seu trauma, transformando-o em uma parte empoderadora de sua história, em vez de algo que o impede de viver a vida que você deseja.


