Seja na esfera mental, física ou emocional, todos nós, regularmente, enfrentamos obstáculos em nossas vidas.
Por vezes, podemos nos sentir paralisados por essas barreiras, e é comum procrastinar e tentar evitar confrontá-las.
Mas e se esses obstáculos representassem, na verdade, uma oportunidade de avançar? E se pudéssemos, de fato, usá-los a nosso favor?
Esta é a tese que Ryan Holiday apresenta em seu best-seller O Obstáculo É o Caminho, uma obra que revela a antiga arte de transformar a adversidade em vantagem.
Holiday se inspira nos princípios do estoicismo, uma escola de filosofia grega que ressoa profundamente com muitos.
Ele também utiliza inúmeras histórias para destacar que estamos destinados a encontrar obstáculos em cada etapa de nossas vidas.
Em vez de evitá-los, como normalmente fazemos por padrão, precisamos aprender a enfrentá-los e a usá-los a nosso favor.
Esse processo de superar obstáculos para, no fim, viver uma vida mais feliz, saudável e produtiva envolve basicamente três etapas interdependentes: Percepção, Ação e Vontade.
A Disciplina da Percepção: Como Você Vê o Mundo?
A primeira parte do livro aborda a percepção, que se refere à forma como vemos e entendemos os eventos ao nosso redor.
Mais importante, ela trata de como decidimos julgar e interpretar esses eventos.
Nossas percepções podem ser uma fonte de força ou podem nos enfraquecer.
Se somos emocionais, subjetivos e míopes, interpretaremos um evento apenas de forma negativa, o que leva a percepções inúteis.
No entanto, ao controlar as emoções, colocar as coisas em perspectiva e examiná-las objetivamente, podemos começar a ver os obstáculos com maior clareza.
O ponto principal da seção de percepção do livro é um dos ensinamentos-chave do estoicismo: a ideia de que temos controle sobre como interpretamos os eventos.
Como um pensador sábio afirmou, “Nada é bom ou ruim, mas o pensamento o torna assim”.
É por isso que, quando encontramos obstáculos ou coisas que não estão indo como planejado, é muito fácil ficarmos assustados, frustrados ou zangados.
Os estoicos ensinam que podemos permitir que esses sentimentos negativos primários controlem nossa resposta, escolhendo ceder a eles.
Ou podemos aprender a filtrá-los e nos desapegar da situação para olhar as coisas de forma mais objetiva.
Ao tentar ver as coisas da perspectiva de um observador externo, percebemos que a maioria dos problemas, objetivamente, não são tão ruins.
Como Ryan Holiday escreve: “O olho que percebe vê mais do que existe, mas o olho que observa vê apenas o que existe”.
Há um capítulo interessante nesta seção chamado “Controlando Suas Emoções” que muitos leitores destacam.
Ele aborda como todos podemos cultivar a habilidade de controlar nossas emoções.
Os gregos tinham uma palavra para isso: apatheia.
É o tipo de calma e equanimidade que surge com a ausência de emoções irracionais ou extremas.
Não é a perda total de sentimentos, mas apenas a perda do tipo prejudicial e inútil.
Não permita que a negatividade entre; não deixe que essas emoções sequer comecem. Apenas diga “não, obrigado, não posso me dar ao luxo de entrar em pânico”.
Uma das técnicas discutidas para lidar com emoções negativas é derrotá-las com a lógica.
É uma abordagem que pode se tornar quase uma segunda natureza, minimizando a intensidade de qualquer emoção negativa forte ao desmembrá-la logicamente.
A Disciplina da Ação: Agir Diante do Desafio
A segunda parte do livro, intitulada “Ação”, tem uma mensagem clara: em qualquer jogo que tentamos jogar, são as pessoas que agem e agem com decisão que acabam vencendo.
Uma história inspiradora vem do técnico Nick Saban, da equipe de futebol americano da Universidade do Alabama, conhecida por suas inúmeras vitórias.
Seu mantra é focar no processo.
Não pense em vencer o campeonato; pense no que você precisa fazer neste treino, nesta jogada, neste momento. Esse é o processo. Vamos pensar no que podemos fazer hoje, na tarefa em questão.
Essa ideia de focar no processo em vez do resultado é um dos pilares de muitos ensinamentos sobre desenvolvimento pessoal.
A maior parte da preocupação e ansiedade que temos sobre as coisas surge quando estamos muito fixados no resultado.
Se nos concentrarmos apenas no processo e na jornada, duas coisas importantes acontecem:
Primeiro, tudo se torna mais divertido, pois estamos de fato presentes no momento.
Segundo, ficamos muito menos ansiosos quanto ao resultado, pois o que realmente importa é o caminho percorrido.
Nesta seção, Ryan Holiday também aborda a importância da consistência e da persistência.
Ele cita Thomas Edison, que realizou mais de 6.000 experimentos para descobrir o elemento que faltava em sua lâmpada.
Embora muitas outras pessoas na época estivessem tentando inventar um sistema de lâmpada funcional, foi Thomas Edison quem persistiu por múltiplas iterações e superou os obstáculos com maior sucesso.
Em resumo, a ação consiste em ser consistente e focar no processo.
Como Ryan Holiday afirma no livro, “Somos pensadores de A a Z, preocupados com A, obcecados com Z, mas esquecendo completamente de B a Y”.
A Disciplina da Vontade: A Força Interior para Persistir
Enquanto a percepção é a disciplina da mente e a ação é a do corpo, a vontade é a disciplina do coração e da alma.
Como Ryan Holiday escreve, a vontade se refere à fortaleza e sabedoria interiores, não apenas sobre obstáculos específicos, mas sobre a própria vida e onde os desafios que enfrentamos se encaixam nela.
A vontade nos dá a força para contextualizar eventos, suportar dificuldades e extrair significado de obstáculos que aparentemente não podemos superar.
Tudo isso faz parte do que os estoicos chamavam de “cidadela interior”.
A ideia é que, ao fortalecer essa cidadela interior, podemos abordar os problemas da vida de uma forma que nos permite obter benefício e poder deles.
Uma das maneiras clássicas que os estoicos usavam para fazer isso, e que Ryan Holiday discute, é a ideia de premeditar a adversidade.
Trata-se de nos colocarmos na situação de algo ruim acontecendo para que, se realmente acontecer, estejamos mais preparados.
Outra parte crucial para fortalecer nossa vontade e essa cidadela interior é aprender a aceitar as coisas que não podemos controlar.
Esta foi uma das formas eficazes com que os estoicos focaram sua vontade, perguntando-se a simples questão: “O que está sob meu controle e o que não está sob meu controle?”
Não podemos mudar fatores externos como eventos naturais, as ações de outros ou até mesmo o que os outros pensam sobre nós.
Mas podemos controlar e mudar fatores internos, como nossas emoções, julgamentos, atitudes e decisões.
Um pensamento final sobre a vontade vem de Nietzsche.
Ele escreveu sua famosa fórmula para a grandeza em um ser humano: amor fati.
Este termo significa não querer nada diferente, nem para frente, nem para trás, nem em toda a eternidade.
Não apenas suportar o que é necessário, muito menos escondê-lo, mas amá-lo.
Este é o conceito de “amor fati”, o amor ao destino.
É um estado ideal de ser onde amamos tudo o que nos acontece.
Não nos preocupamos com o passado, não estamos fixados no futuro, não nos preocupamos com nada.
O que quer que aconteça, primeiro aceitamos e depois aprendemos a amar, porque essa é a melhor maneira de ser.
Com a tríade de percepção, ação e vontade, podemos avançar com o conhecimento de que podemos ver claramente, agir com clareza e aceitar o mundo como é.
Como Marco Aurélio escreveu em suas célebres Meditações:
Julgamento objetivo, agora, neste exato momento. Ação altruísta, agora, neste exato momento. Aceitação disposta, agora, neste exato momento. Isso é tudo de que você precisa.


