Cultive Sua Inteligência e Discernimento: A Ilusão das Premiações

Tempo de leitura: 8 min

Escrito por Tiago Mattos
em fevereiro 26, 2025

Cultive Sua Inteligência e Discernimento: A Ilusão das Premiações

A Ilusão das Premiações: Como Cultivar Sua Verdadeira Inteligência e Discernimento

Para desenvolver uma inteligência aguçada e um discernimento apurado, é fundamental que você faça um esforço consciente para não se deixar impressionar por prêmios. Isso significa atribuir um valor menor àqueles reconhecimentos que empresas e indivíduos recebem, à fama que ostentam e aos títulos que possuem.

O simples fato de alguém ter um título de doutorado em uma determinada área não significa que você deva acreditar plenamente em tudo o que ele diz. Da mesma forma, uma empresa ser premiada como “A Melhor do Ano” não garante que tudo o que ela faz é impecável.

O que, de fato, significa quando alguém ou uma empresa ganha um prêmio? Significa apenas que essa pessoa ou empresa ganhou um prêmio. Somente isso.

Parece óbvio, mas muitas vezes nosso cérebro é enganado. Pensamos que o prêmio carrega um significado além de sua natureza.

Por exemplo, quando um ator ganha o Oscar, isso significa apenas que ele recebeu o Oscar de melhor ator daquele ano. Não significa que ele é o melhor ator do mundo naquele período, ou a melhor pessoa do mundo.

O único significado desse prêmio é que um grupo muito específico de pessoas, que votam no Oscar, assistiu a um grupo igualmente específico de filmes, e a maioria desse grupo escolheu aquele ator como tendo a melhor atuação entre os filmes assistidos.

A opinião de todas as outras pessoas que não votaram no Oscar não foi considerada, assim como a atuação de milhares de outros atores que não estavam naqueles filmes assistidos. Pode ser que o ator que ganhou tenha recebido apenas um voto a mais que o segundo colocado.

Isso sem falar em todo o lobby que existe por trás da escolha, pois mesmo em prêmios de renome como o Oscar, de vez em quando surgem notícias de votos comprados, direta ou indiretamente.

Por Que Nos Deixamos Levar Pelas Premiações?

Prêmios são criados, em parte, para explorar uma característica da nossa inteligência: ela está sempre buscando atalhos para lidar com a sobrecarga de informações. Assim, em vez de realizarmos uma avaliação por conta própria, um atalho interessante é confiar na opinião de outras pessoas que supostamente dedicaram tempo e esforço àquela avaliação.

Por exemplo, em vez de ter que assistir a mil filmes por ano e escolher os melhores, você pode optar por assistir apenas aos filmes vencedores do Oscar nas categorias que mais lhe agradam. Ao fazer isso, você consegue lidar com uma grande quantidade de informações, mas precisa confiar na opinião de especialistas.

O problema é que a indústria sabe que nossa inteligência é manipulável por esses prêmios. É por isso que existem premiações para praticamente tudo, em cada segmento de mercado. Você encontra prêmios para profissionais, para empresas, e os premiados começam a cobrar mais por seus serviços.

Sabe quando você vai cheio de expectativa naquela lanchonete que promete um lanche premiado como o “melhor hambúrguer da cidade”? E você sai de lá com uma grande decepção porque o hambúrguer não tinha nada de especial, exceto o preço que pagou?

Você, por causa dessa premiação, acabou se decepcionando por ter sido vítima de uma manipulação.

Talvez o hambúrguer até fosse bom no dia da competição que deu o prêmio. Ou talvez o tempo tenha passado e a qualidade piorou, mas a plaquinha da premiação continua lá.

Ou talvez o dono seja amigo da turma que deu o prêmio, ou até pagou para ganhá-lo. Nunca saberemos a verdade.

A Realidade Por Trás do Reconhecimento

A melhor coisa, então, é parar de confiar tanto nesses prêmios. Na prática, eles não lhe dão garantia de nada.

Isso se aplica a bens de consumo e também ao mercado cultural. É incrível como tentam dar uma chancela de qualidade a um filme, um livro, uma música.

Você pode consumir um filme que ganhou vários troféus de cinema, como o Leão de Ouro, mas ainda assim achá-lo péssimo para o seu gosto pessoal.

No fundo, nós sabemos disso tudo, mas ainda assim nos deixamos impressionar pelas premiações. E esse é um erro que custa caro, pois acabamos pagando mais por algo que ganhou muitos prêmios, mas não é necessariamente melhor.

Não importa se estamos falando do prêmio de “Melhor Restaurante da Cidade”, do Oscar ou de um Nobel. O fato isolado de alguém ter recebido um prêmio não significa que você deve idolatrá-lo, ou confiar totalmente naquela empresa ou pessoa premiada.

Ele apenas ganhou um prêmio, e isso não é um certificado de qualidade que garante que tudo o que vem dali será impecável.

Faça um esforço consciente para não se impressionar por pessoas ou empresas que usam prêmios, especialmente aquelas que os utilizam como cartão de visitas. Aprenda a avaliar por conta própria a qualidade dos produtos ou serviços oferecidos pelos premiados.

A Ciência da Decisão: O Cérebro e os Prêmios

Prêmios exploram um modo rápido de pensar do cérebro para nos fazer tomar decisões baseadas em nossas emoções.

Daniel Kahneman dedicou a vida inteira a essa relação entre economia e ciência cognitiva para tentar explicar o comportamento aparentemente irracional que temos ao tomar várias decisões.

De forma muito resumida, a conclusão é que o cérebro tem dois modos de pensar: o modo devagar e o modo rápido.

O modo devagar exige atenção e esforço do cérebro, consumindo mais energia. O modo rápido usa atalhos para tomar decisões automáticas baseadas em padrões que reconhecemos, com menos esforço e menos energia.

Por exemplo, me diga quanto é 5 mais 5. Você já sabe a resposta decorada, usa o modo rápido para dizer 25, antes mesmo de ter tempo de “pensar” na pergunta.

Agora, se eu lhe perguntar quanto é 37 vezes 24, você não tem um padrão reconhecido. Agora você tem que usar o modo devagar, com atenção, com esforço, para fazer a conta.

Os prêmios exploram o modo rápido de pensar para nos levar a tomar uma decisão baseada mais na emoção do que na razão. Empresas com departamentos de marketing inteiros exploram esse nosso mecanismo de pensamento rápido para induzi-lo a tomar uma decisão que não é necessariamente a melhor.

Por exemplo, você vai comprar manteiga e encontra duas marcas que nunca experimentou antes.

A manteiga mais barata tem uma embalagem normal, e a manteiga mais cara tem uma embalagem com um selo e vários emblemas de prêmios recebidos.

Mesmo sem conhecer nenhuma delas, seu modo rápido de pensar pode concluir que a manteiga premiada é melhor, mesmo que você não tenha a menor ideia de que prêmios são esses.

O Efeito Halo: Quando o Brilho Cega

Lembre-se do efeito halo: o reconhecimento de uma qualidade específica não deve ser transferido para outras áreas do conhecimento.

Para aplicar um pouco do que estamos aprendendo, consideremos que o próprio Daniel Kahneman ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2002 por causa de suas teorias a respeito dos nossos modos de pensar.

O que isso significa? Significa que houve um reconhecimento pelo trabalho que ele desenvolveu nessas áreas de psicologia e economia. Receber um prêmio é isso, e apenas isso.

O fato de ele, ou qualquer outra pessoa, ter ganhado o Prêmio Nobel não significa que você deva confiar plenamente em tudo o que essa pessoa diz. O fato de alguém ter sido eleito “Personalidade do Ano”, ganhado o Prêmio Nobel, ou sido eleito “Funcionário do Mês”, não impede que essa pessoa fale um monte de bobagem sobre vários outros assuntos, ou se comporte de maneira inadequada.

Essa tendência que nós temos de expandir para outras áreas a qualidade específica de uma pessoa ou de uma empresa já foi estudada e tem um nome: Efeito Halo.

O halo é aquele círculo brilhante ao redor do sol ou da lua, a luz que se expande, como se fosse uma auréola.

Efeito halo é o termo que os psicólogos usam para definir essa tendência que temos de expandir a qualidade de uma pessoa premiada para todas as áreas do conhecimento.

Pense, por exemplo, em um músico que ganha um prêmio importante. Este músico tem um trabalho que fez muito sucesso, recebeu reconhecimento e um prêmio por ele.

Ele começa a ganhar mais espaço na mídia, é chamado para entrevistas, e começa a falar publicamente sobre vários assuntos, como política ou saúde.

Mesmo que o conhecimento dessa pessoa nesses assuntos seja superficial, muitas pessoas vão escutar e considerar o que ele está falando, apenas por ser uma pessoa famosa e premiada, em vez de prestar atenção em pessoas que realmente dominam o assunto.

É crucial prestar atenção na qualidade da ideia que a pessoa está comunicando, e não na sua fama.

Sua Avaliação Pessoal É O Que Importa

Para não cair nessa armadilha do efeito halo e evitar que sua inteligência seja manipulada por premiações, você precisa apenas internalizar essa ideia: O prêmio é apenas um prêmio, e não significa nada além disso.

A qualidade de um produto ou de um serviço, e o preço que você deve pagar, dependem apenas da sua própria preferência e da sua experiência. Você pode detestar algo que foi muito premiado e pode adorar algo que nunca ganhou um prêmio. O importante é que a decisão seja totalmente sua.

Afinal, não importa se estamos falando de um Prêmio Nobel ou do “melhor cachorro-quente da cidade”. O fato isolado de uma pessoa ou de uma empresa ter recebido um prêmio não significa que você deve idolatrá-la ou confiar totalmente nela.

Tenha o discernimento de entender que o prêmio é apenas um prêmio. Não é um certificado de qualidade, não santifica, e não garante tudo aquilo que vem do premiado.

Aumente seu nível de inteligência para você avaliar produtos e serviços por conta própria, e nunca mais se deixe impressionar por quem usa essas premiações como um certificado de qualidade inquestionável.

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