Autoengano na Psicologia: Como a Mente Mente para Si Mesma e Você Acredita

Tempo de leitura: 4 min

Escrito por Tiago Mattos
em março 10, 2025

Autoengano na Psicologia: Como a Mente Mente para Si Mesma e Você Acredita

Autoengano: A Mentira que Contamos a Nós Mesmos e Acreditamos

Você já parou para pensar se mente tanto a ponto de acreditar na sua própria mentira? Este é o intrigante processo de autoengano, um mecanismo psicológico poderoso que afeta a todos nós e tem implicações profundas em diversas áreas da vida.

A mente humana, em sua complexidade, muitas vezes nos prega peças, distorcendo a realidade para proteger nossa autoestima ou simplificar decisões. Mas como exatamente isso acontece? Um experimento fascinante nos oferece pistas valiosas.

O Que a Psicologia Revela Sobre o Autoengano

Imagine o seguinte cenário: participantes de um estudo foram desafiados a resolver questões de raciocínio lógico.

Para ilustrar a complexidade, uma das perguntas era: “Se o peso de um homem é 75% do próprio peso mais 25 kg, quanto ele pesa?” (Pense um pouco e tente responder!).

O experimento foi dividido em duas fases, revelando como o autoengano se manifesta.

A Primeira Fase: O Teste e a Tentação

No início, um grupo de controle apenas realizava a prova e entregava as respostas aos pesquisadores para correção. A pontuação média desse grupo servia como base.

Um segundo grupo, porém, teve uma condição diferente. Eles também faziam a mesma prova, mas com uma pequena peculiaridade: as respostas estavam disponíveis no rodapé da página.

A instrução era clara: primeiro, responda a questão; depois, confira seu desempenho usando o gabarito. Ou seja, a honestidade individual era testada.

Qual foi o resultado? Como era de se esperar, o grupo que teve acesso às respostas obteve uma pontuação média significativamente maior do que o grupo de controle.

Isso não é surpreendente; afinal, como diz o ditado, a ocasião faz o ladrão. Pessoas tendem a tirar vantagem quando a oportunidade se apresenta, mesmo que seja apenas para “dar uma melhoradinha” sutil no próprio resultado.

A Segunda Fase: Quando a Mentira se Torna Verdade

A verdadeira revelação do autoengano aconteceu na segunda etapa do estudo. Suponha que você fazia parte daquele grupo que teve acesso ao gabarito.

Ao tentar resolver 10 perguntas sozinho, você acertou cinco e errou cinco – sua nota real era 50%.

No entanto, ao ter o gabarito à mão, você considerou uma boa ideia “ajustar” algumas respostas. No fundo, talvez até acreditasse que sabia a resposta, mesmo que não a tivesse formulado corretamente de primeira.

No final, você preencheu oito respostas certas, deixando apenas duas realmente difíceis sem solução. Você deu uma “melhoradinha” no seu resultado, alcançando um aparente 80%.

Agora, os pesquisadores propuseram um novo desafio: “Se lhe déssemos uma segunda prova, com 100 questões do mesmo tipo e complexidade, mas sem gabarito e com correção externa, quanto você acredita que acertaria?”

Aqui reside o cerne do autoengano. Você diria que tem capacidade para acertar 50% das questões (sua performance real inicial) ou 80% (sua performance “ajustada”)?

Os cientistas descobriram que, na maioria dos casos, os participantes tenderam a acreditar na própria mentira, ou seja, eles realmente acreditavam que acertariam 80% na nova prova.

Eles incorporaram o autoengano, transformando a performance artificialmente melhorada em sua percepção de capacidade real.

Como o Autoengano Impacta Nosso Cotidiano

Este mecanismo não se restringe a testes psicológicos. Ele se manifesta em diversas dimensões da nossa vida, com implicações práticas significativas.

Nos Estudos e na Aprendizagem

Se você é estudante, já deve ter se deparado com um dilema parecido: é melhor resolver todos os exercícios de um simulado e só depois conferir o gabarito, ou fazer um por um, conferindo a resposta a cada etapa?

A primeira opção é sempre a melhor para evitar o autoengano. Ao resolver tudo antes de olhar as respostas, você testa seu conhecimento genuíno.

Caso contrário, a tentação de “dar uma espiadinha” é grande, e acabamos caindo na armadilha de acreditar que acertamos por mérito próprio, quando na verdade fomos “influenciados” pela resposta.

Nas Finanças Pessoais

O autoengano também pode ter um impacto negativo em nossas finanças. Há quem acredite, por exemplo, que ganha um salário de R$ 5.000.

Mas esse valor é o bruto. Descontos de previdência e impostos podem reduzir o valor líquido para pouco mais de R$ 4.000.

No entanto, o indivíduo, sob o autoengano, continua a planejar seu orçamento e até financiamentos com base nos R$ 5.000 brutos.

Essa diferença, ao final do mês, pode comprometer seriamente um planejamento financeiro responsável, gerando surpresa e frustração por não entender “para onde o dinheiro foi”.

Desvendando o Autoengano para Viver Melhor

A capacidade de entender nossa própria psicologia é fundamental para tomar decisões conscientes.

O autoengano nos faz acreditar em uma realidade fabricada, nos impedindo de avaliar de forma precisa nossas habilidades, recursos ou até mesmo nossa verdadeira intenção.

Voltando àquela pergunta inicial sobre o peso do homem: sua resposta foi influenciada por algo que você viu ou ouviu em outro lugar, e você, sem perceber, acreditou que já sabia a resposta?

É difícil saber, pois o autoengano age de forma sutil, fazendo-nos crer que nossa percepção é a verdade absoluta.

Reconhecer a existência do autoengano é o primeiro passo para desenvolver maior autoconsciência e tomar as rédeas da sua própria mente.

Seja nos estudos, nas finanças ou nas relações, estar ciente de como nossa mente pode nos enganar nos capacita a fazer escolhas mais realistas e eficazes.

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