A Armadilha do “Bem”: Por Que a Divisão Causa Tanta Dor
Pode parecer estranho, mas confesso: sinto um certo receio de quem se posiciona como “do bem”.
Explico o motivo: quem é muito apegado à divisão entre bem e mal, naturalmente busca o lado correto, o lado certo, o lado adequado.
É uma busca por retidão.
No entanto, há uma doce armadilha nisso.
Em momentos de intensa polarização, quem se vê no lado do “bem” pode olhar para o outro lado e rapidamente identificar ali o “mal”.
O lado daqueles que não respeitam o que é certo, que não seguem o que é correto ou adequado.
Essa separação, quase infantil, entre gente “certa” e gente “errada”, entre gente “do bem” e gente “do mal”, cria um abismo profundo.
Esse abismo tem uma consequência que aprendemos desde cedo: pessoas que erram precisam ser corrigidas.
E aqueles considerados “do mal” precisam ser punidos.
Vamos fazer um breve exercício de empatia.
Por um segundo, imagine-se do outro lado desse abismo.
Chegando lá, você se vira e pergunta: “E aí, pessoal ‘do mal’? Como é viver aqui, neste lado que é visto como sombrio? Estão destilando muito ódio, muita maldade?”
A resposta que você provavelmente receberá, com um olhar de preocupação, será: “Desculpe, forasteiro, mas acho que você está enganado. Aqui é o lado do bem. O lado do mal é aquele outro lado!”
Perceba, com este simples exercício, algo fascinante: ambos os lados, ambos os grupos, acreditam fervorosamente serem o lado do bem.
E é por causa desse abismo, dessa insistência na divisão entre pessoas “do bem” e “do mal”, entre “corretos” e “incorretos”, que sinto esse receio.
Muito sofrimento já foi e ainda é causado por essa separação entre o que é “adequado” e o que é “inadequado”.
Desejo que a empatia funcione como uma ponte, capaz de aproximar pessoas e construir um caminho para uma vida mais conectada e menos dolorosa.


