Trabalhar com o que Você Ama: A Verdade Desconfortável sobre a Busca pela Felicidade Profissional
“Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida.” Uma frase poderosa, supostamente proferida por Confúcio há mais de dois mil anos na China, que ressoa profundamente em muitos de nós. A ideia de que o trabalho deve ser uma fonte inesgotável de prazer e alegria tem ganhado força considerável nas últimas décadas.
Até a década de 90, essa busca por um trabalho que gerasse pura paixão e alegria não era uma recomendação tão difundida. Foi a partir de meados dos anos 80, e com mais força nos anos 2000, que essa ideia começou a ser massivamente propagada, impulsionando muitos a questionarem se o trabalho precisa ser necessariamente uma fonte de prazer constante para se viver uma vida plena.
Mas, na vida real, será que essa máxima é verdade? Será que você precisa ter um tipo de trabalho com uma rotina cheia de festas, alegria e emoções vibrantes para ser feliz? Ou está tudo bem ter um trabalho tranquilo, de rotina, num escritório padrão, onde a principal função é pagar as contas, e buscar a felicidade em outras áreas da vida?
Muitos veem o trabalho simplesmente como um ofício, uma forma de servir aos outros e obter uma recompensa financeira por isso. E isso está tudo bem.
No entanto, a crença de que você *deveria* trabalhar com o que ama pode estar, na verdade, destruindo boa parte da sua satisfação com a vida.
Uma mente inteligente é aquela disposta a examinar diferentes perspectivas sobre um determinado tema antes de decidir. Por isso, hoje vamos explorar um ponto de vista alternativo, o oposto do que geralmente é recomendado pelo coaching motivacional e pelas redes sociais. Vamos olhar com curiosidade para a ideia de que o trabalho não existe para te dar felicidade.
O Mito da Ausência de Esforço
A ideia de que o trabalho não foi feito para te dar prazer e que, sim, você vai enfrentar desafios e esforços nele, pode parecer uma fuga da realidade. Mas vamos pensar juntos.
Imagine que você é um apaixonado por história em quadrinhos. Desde criança, conhece todos os personagens, tem um conhecimento profundo e até sabe analisar criticamente elementos como roteiro, arte-final e edição.
Apesar dessa paixão, hoje você trabalha como advogado. Sua rotina envolve atender clientes, redigir petições e acompanhar processos.
É assim que você traz dinheiro para casa, paga suas contas e sustenta sua família. Você sente que sua vida profissional não lhe traz grandes emoções, e por vezes, se sente um pouco desanimado.
Então, você vê nas redes sociais palestrantes motivacionais dizendo: “Trabalhe com aquilo que você ama!”.
E a crença de que um trabalho feliz é um trabalho prazeroso começa a se fortalecer dentro de você, baseada naquele provérbio de que, se você trabalhar com o que ama, não terá que trabalhar um único dia na sua vida.
Um dia, você decide largar a advocacia e resolver trabalhar com história em quadrinhos. Transforma sua paixão em seu trabalho: abre um canal no YouTube de crítica de quadrinhos, cria uma loja online para recomendar revistas e ganha comissões por cada venda.
Pronto! Agora você trabalha com o que ama e não precisará mais trabalhar um único dia em sua vida, certo? Errado.
No momento em que você transforma sua paixão em trabalho, o esforço e os desafios vêm junto. Ser apaixonado por história em quadrinhos é uma coisa; conseguir trabalhar com isso é outra.
No sonho idealizado, você imagina passar o dia inteiro lendo quadrinhos, fazendo contatos com grandes artistas, conhecendo outras pessoas apaixonadas.
Mas, na prática, seu dia será tomado por uma série de problemas: você tem que roteirizar, gravar e editar vídeos; tem que lidar com as finanças do YouTube.
Garantir que sua loja esteja online; atender clientes; lidar com reclamações (como alguém que diz que a revista não foi entregue).
Se seu negócio conseguir crescer, você terá que contratar funcionários, liderar uma equipe, e saber lidar com novas causas internas e o que fazer quando um deles falta ao trabalho ou pede demissão.
Veja bem: se você está insatisfeito, nem sempre a mera troca de trabalho vai resolver essa insatisfação. Há pessoas que trocam de trabalho o tempo inteiro e continuam reclamando.
O maior problema, muitas vezes, não está no trabalho em si, mas na expectativa irreal. Esperar que, ao trabalhar com o que você ama, todos os problemas magicamente desaparecerão é um grande engano.
Trabalhar é prestar serviço para outras pessoas, sejam seus empregadores, clientes ou funcionários. Todo trabalho exige esforço, dedicação e paciência para você lidar com problemas ou frustrações.
Assim que você transforma sua paixão em trabalho, o esforço e os desafios vêm junto, e você não deve tentar fugir disso.
Os Pilares de uma Carreira Sustentável: Paixão, Capacidade e Demanda
Trabalhar com aquilo que você ama é uma combinação de paixão, capacidade e demanda. Isso não elimina os desafios, mas oferece um caminho.
Você também precisa entender que, ao dar esse passo, deve ter clareza de que não existe uma garantia de uma vida sem aborrecimentos, sem frustrações, sem problemas para serem resolvidos. Não é possível eliminar os desafios apenas pelo fato de estar trabalhando com sua paixão.
Primeiro, você precisa verificar se realmente é possível seguir essa paixão profissionalmente. Paixão não é o único elemento necessário para um bom trabalho. A paixão pode diminuir quando você deixa de ser um hobby e vira trabalho. Para você trabalhar com aquilo que você ama, a atividade deve ter três pilares:
- Paixão: Tudo aquilo que você gosta muito de fazer.
- Capacidade: Sua habilidade de fazer isso profissionalmente.
- Demanda: O interesse das pessoas em pagar por essa sua capacidade numa escala que viabilize seu sustento.
Por exemplo, digamos que você é apaixonado por música clássica (sua paixão). Se você não tem capacidade para tocar um instrumento, dificilmente conseguirá trabalhar com isso.
Caso você tenha a habilidade com música clássica, mas na sua cidade não há demanda (não tem orquestra, teatro, ninguém valoriza a música clássica), dificilmente você conseguirá trabalhar com isso ali.
Nesse caso, você teria que mudar de cidade ou empreender pela internet. Não estamos dizendo que é impossível, mas o esforço necessário será muito maior.
Nem todas as pessoas têm uma paixão que gostariam de transformar em carreira, e tudo bem com isso. Mas se você tem capacidade e demanda, pode usar tudo isso para construir uma carreira de sucesso, usando sua habilidade para servir às necessidades do mercado.
Por outro lado, quem tem paixão e capacidade, mas não tem demanda, não vai conseguir pagar as próprias contas.
Quem tem paixão e demanda, mas não tem capacidade, também não fará com que o mercado pague por um trabalho que não é bom. O pilar da demanda é muito importante.
Uma pesquisa da Universidade de Montreal descobriu que muitas das maiores paixões dos estudantes não encontravam espaço suficiente nos postos de trabalho disponíveis.
É uma constatação que qualquer pessoa pode fazer: ao perguntar quais são suas paixões, as pessoas geralmente mencionam hobbies que envolvem arte, jogos, viagens.
Mas não há tanto espaço assim no mercado de trabalho para todo mundo fazer isso, o que gera uma grande concorrência.
A Realidade do Esforço e a Aceitação
O esforço faz parte da vida, e o medo de encarar os desafios pode paralisar sua vida. Se você se encaixa nessa intersecção entre paixão, capacidade e demanda, vá em frente! Você pode usar os projetos para trabalhar com aquilo que você ama.
Ainda assim, é natural ter um certo receio de dar esse passo, porque você vai transformar uma coisa que você gosta em um trabalho, e trabalho é servir os outros e estar pronto para enfrentar uma série de problemas.
Não deixe o medo paralisar sua vida. Se você realmente decidiu trabalhar com aquilo que você ama, vá em frente, mas com a consciência de que seu trabalho não existe apenas para trazer prazer.
A busca por um trabalho que apenas traga prazer provavelmente não levará a lugar nenhum por muito tempo. Aquela pessoa que fica pulando de galho em galho, insatisfeito, achando que a solução está sempre no próximo trabalho, acaba estagnada.
Em vez disso, você pode se dedicar ao seu trabalho atual ou àquele que escolhe com paixão. Tente dominar esse ofício, dê o seu melhor, recebendo de braços abertos tanto as vantagens quanto as desvantagens naturais do seu trabalho.
A pessoa que tenta fugir dos problemas do trabalho acaba ficando estagnada e incapaz de agir.
Mas no momento em que você aceita o esforço, você consegue extrair força dos seus problemas, ficando melhor a cada questão resolvida. Aí, você está pronto para encarar qualquer tipo de trabalho, seja ele parte ou não das suas paixões.
Redefinindo a Felicidade no Trabalho e na Vida
A recomendação de que todos deveriam seguir suas paixões para trabalhar com o que gostam é nada mais que uma ilusão. O trabalho não existe apenas para te dar prazer.
Querer trabalhar apenas com o que você gosta limita muito suas opções. Isso não significa que você tenha que abandonar a ideia de seguir sua paixão, apenas saiba que não é algo tão fácil de se fazer.
Se você está na intersecção entre paixão, capacidade e demanda, siga em frente, mas com a clareza de que, no momento em que você transformar seu hobby em trabalho, os desafios vêm junto com você.
Você vai acabar percebendo que sua felicidade não depende apenas de trabalhar com aquilo que você gosta.
Mas, então, de que depende a felicidade? No mundo ideal, a felicidade não depende de fatores externos. Isso é muito difícil de conseguir, mas treinando a mente e usando técnicas, você pode aumentar os níveis de felicidade em pouco tempo, cultivando uma satisfação que vai muito além das paredes do seu escritório ou das tarefas do seu dia a dia.


